terça-feira, 12 de maio de 2026

Best Pirinéus Tour 2025 #8/8

Dia 8 (02/08/2025): Plasencia – Regresso a casa

Na prática, o Best Pirinéus Tour 2025 tinha terminado no dia anterior. Mas na verdade, qualquer tour só fica verdadeiramente concluído quando todos os motociclistas chegam aos seus destinos. Sãos e salvos.

Por estarmos já tão perto de Portugal e devido ao interesse manifestado por alguns dos participantes, a organização decidiu então que a viagem de regresso seria efectuada de forma livre por cada um dos elementos do grupo.

Dia 8 – 170 km.

Assim, após o pequeno-almoço tomado ainda no hotel e com a moto devidamente preparada, o regresso a Portugal teve início a meio da manhã, uma vez que não houve necessidade de ter de cumprir um horário pré-estabelecido para a saída, como tinha sucedido nos dias anteriores.

Sem pressas e em ritmo de passeio, cerca de 90 km depois, pela Ruta de la Plata (N-630), chegámos à localidade de Cáceres, capital da província homónoma, onde aproveitámos para visitar ao seu centro histórico, também conhecido como Ciudad Monumental, Ciudad Vieja de Cáceres ou Barrio de Intramuros.

Cáceres é uma das cidades declaradas Património da Humanidade de Espanha. Com o terceiro maior complexo monumental da Europa, nesta cidade viaja-se no tempo até à época do Renascimento e, sobretudo, para a Idade Média graças às ruas, praças, palácios e muralhas especialmente bem conservados.

Praça de Santa María (uma das mais importantes da cidade, onde fica a Concatedral de Cáceres, o Palácio Episcopal, o Palácio de Hernando de Ovando, o Palácio de los Mayoralgo, o Palácio Provincial e o Palácio de los Golfines de Abajo).

Concatedral de Cáceres (igreja com origem no Séc. XIII, mas que, após sua destruição, foi reconstruída como é agora durante os Séc. XV e XVI).

Arco de la Estrella (principal porta de entrada no recinto cercado de muralhas de Cáceres).

Praça de San Jorge, com a Igreja de San Francisco Javier (igreja jesuíta de estilo barroco construída no Séc. XVIII).

Sefarad (nome em língua hebraica para a Península Ibérica), símbolo associado aos Sefarditas antes da sua expulsão em 1492 (Espanha) e 1496 (Portugal).

Casa-Museu Árabe Yusuf Al-Burch (casa árabe do Séc. XII, erigida sobre um recinto romano antigo, cuja reconstrução deu origem ao actual museu inaugurado em 1976).

Entretanto, o calor já se fazia sentir com alguma intensidade, como é habitual nesta altura do ano na Extremadura espanhola. Depois da visita a pé ao centro histórico, uns momentos de relaxamento à sombra de uma esplanada vieram mesmo a calhar. Aproveitámos também a oportunidade para comprar alguns produtos tradicionais da gastronomia local, nomeadamente quesos e embutidos, deixando assim a top case bem aromatizada para o resto da viagem.

De novo na estrada, uma tirada final de cerca de 90 km pela N-523 levou-nos de regresso a Badajoz e ao ponto de encontro do 1.º dia do tour, na Área de Serviço de Badajoz (Autovía del Suroeste). Aqui foi efectuado o último abastecimento a preços “mais simpáticos”, antes da entrada em Portugal para o regresso a casa. Estava assim “fechado o círculo” no trajecto do Best Pirinéus Tour 2025.

Resumo

A Rota Transpirenaica em moto é uma das viagens mais desafiantes e espetaculares para os motociclistas. Esta rota atravessa a Cordilheira dos Pirenéus, ligando o Mar Mediterrâneo ao Mar Cantábrico e estende-se por aproximadamente 800 quilómetros.

Na verdade e em sentido lato, a Transpirenaica (travessia dos Pirenéus) pode ser percorrida tanto de Sudeste para Noroeste, como de Noroeste para Sudeste. O ponto de partida e o ponto de chegada podem ser os mais variados, em locais como Roses, Cadaqués, Cabo de Creus (a Sudeste) ou em San Juan de Luz, Hendaya, Hondarribia, Cabo Higuer, San Sebastián (a Noroeste), para mencionar apenas alguns.

O que é verdadeiramente importante é apreciar a travessia desta magnífica zona montanhosa, serpenteando entre Espanha e França com uma forte componente de descoberta, passando por regiões de grande interesse histórico, cultural e paisagístico. Os locais de paragem ao longo do trajecto podem ser efectuados onde e quando se achar mais conveniente.

Grandiosas e deslumbrantes paisagens aguardam os motociclistas nos Pirenéus.

De uma forma simplista, num tour de 8 dias onde o objetivo fica a 1.000 km de distância, poder-se-á dizer que são 4 dias de obrigação (com paragens a cada 250/300 km para abastecer durante a viagem), para 4 dias de satisfação (com percursos diários de cerca de 300 km para disfrutar da paisagem). Uma inevitabilidade, é certo, mas na realidade acabam por ser 8 dias cheios de excelentes aventuras, camaradagem e espírito de grupo, sempre com as motas como denominador comum. Nada mal.

Sendo um tour com contornos muito próprios, que se desenrola numa zona de grande beleza, em ambiente de alta montanha e de deslumbrantes vales, é importante realçar que o mesmo carece de alguma disciplina e rigor, em especial no que diz respeito aos horários de saída, para que se possa aproveitar em pleno tudo o que cada dia irá proporcionar.

No acesso ao Cabo de Creus, é também importante ter em atenção as restrições que são impostas aos veículos motorizados que circulam na estrada entre Cadaqués e o Farol do Cabo de Creus, especialmente durante os meses de maior afluxo de turistas, tal como nos sucedeu no 3.º dia do tour.

No final, deixo um agradecimento e uma nota muito positiva à organização (G2 Aventuras Ilimitadas), na pessoa do Jorge Gameiro, que não se poupou a esforços para proporcionar uma fantástica travessia da cordilheira transpirenaica a todos os 26 participantes (22 motas) do Best Pirinéus tour 25.

domingo, 26 de abril de 2026

Best Pirinéus Tour 2025 #7/8

Dia 7 (01/08/2025): Vitoria – Plasencia

Um misto de autoestradas e de estradas nacionais levaria a caravana do Best Pirinéus Tour 2025 até bem perto do território português. O destino seria a cidade de Plasencia (Extremadura), com uma paragem sensivelmente a meio do percurso em Tordesillas (Castilla y León), localidade histórica onde, no Séc. XV, foi acordada a divisão do mundo entre o reino de Portugal e o reino de Espanha.

Dia 7 – 520 km.

Cumprindo o horário habitual, despedimo-nos da cidade de Vitoria-Gasteiz perto das 08h30, logo após a azáfama matinal da tomada do pequeno-almoço no hotel, da arrumação da bagagem e da lubrificação da corrente da mota.

Com um pouco mais de cinco centenas de quilómetros para percorrer neste 7.º dia do tour, a primeira metade do percurso acabou por ter pouca história. As motas foram paulatinamente cumprindo a rota traçada ao longo das autovias/autopistas das regiões espanholas do País Vasco e de Castilla y León, onde não houve grandes motivos dignos de registo a quebrar a monotonia da viagem.

Sem locais pré-definidos para abastecer as motas e com o grupo já um pouco desagregado entre si, fruto do trânsito e das muitas ultrapassagens efectuadas ao longo do trajecto, lá chegou o momento de ter de parar numa estação de serviço para colocar combustível na mota. Ao retomar a viagem, acabei por seguir praticamente sozinho, guiado apenas pelo track fornecido pela organização e na companhia do último dos participantes que vinha a fazer de “mota-vassoura” não oficial.

Chegámos com calor à principal paragem do dia, em Tordesillas, a tempo de nos juntarmos aos restantes elementos para uma visita a um dos locais mais emblemáticos da cidade, as Casas del Tratado (Museu). Declaradas Bem de Interesse Cultural, trata-se de dois palácios unidos, que receberam este nome porque em 7 de junho de 1494 foi aqui assinado o Tratado de Tordesilhas. Celebrado entre o Reino de Portugal e a Coroa de Castela, serviu para dividir as terras “descobertas e por descobrir” no Novo Mundo por ambas as Coroas (foi definida como linha de demarcação, o meridiano 370 léguas a oeste da ilha de Santo Antão no arquipélago de Cabo Verde).

Museu do Tratado de Tordesilhas, onde o mesmo foi assinado em 1494 (Tordesilhas).

Detentora dos títulos de “cidade muito ilustre, antiga, coroada, leal e nobre”, em Tordesillas destacam-se ainda outros monumentos e locais de interesse, tais como o Real Monasterio de Santa Clara (construído no local do antigo palácio mudéjar chamado “Pelea de Benimerín”, erigido em 1340 por Afonso XI de Castela após seu triunfo na Batalha de Salado, e financiado com o saque obtido nesse conflito. O seu filho Pedro, o Cruel, consertou-o e doou-o em 1363 às suas filhas Beatriz e Isabel para que pudessem transformá-lo num convento) e a Igreja-Museu de San Antolín (onde uma série de peças artísticas da própria igreja e várias outras da cidade são reunidas e exibidas, entre as quais destaca-se o túmulo da família Alderete. O edifício é uma igreja dos Séc. X e XVII, iniciada em meados do Séc. XVI e concluída por Gil de Reynaltos em 1644).

Merece também destaque a Igreja de Santa María (a maior igreja da cidade, construída em pedra e tijolos, entre os Séc. XVI e XVIII, com base gótica e evolução clássica), a Puente (não há referência à origem da atual ponte, nem data, nem vestígios, nem autores. A pontuação de seus arcos indica a sua origem medieval), a Muralla (cercava toda a cidade e tinha carácter fiscal e militar. Foi construída em pedra, tijolos e terra batida. Tinha quatro portões principais, que coincidem com os quatro pontos cardeais) e a Plaza Mayor, entre outros.

E foi precisamente na Plaza Mayor (uma praça toda com arcadas e com acesso pelas entradas de quatro ruas, cuja estrutura atual data do Séc. XVII, onde as casas de dois andares têm as lojas por baixo), localizada a cerca de 200 m das Casas del Tratado, onde acabámos por nos sentar na esplanada do restaurante Don Pancho para almoçar.

Almoço na Plaza Mayor (Tordesilhas).

O sol já ia bem alto, assim como o termómetro que indicava a temperatura ambiente. O ar quente e seco tornou-se num companheiro de viagem pouco desejado para a tirada da tarde, em mais umas centenas de quilómetros a rolar pelas regiões de Castilla y León e da Extremadura. As autovias/autopistas deram finalmente lugar às estradas nacionais, tornando assim o percurso bem mais interessante.

A travessia da Sierra de Gredos, cordilheira classificada como parque regional e um dos subsistemas montanhosos mais extensos do Sistema Central ibérico, trouxe maior animação à caravana, com o encadeado de curvas e contracurvas nas províncias espanholas de Ávila e Cáceres. Na transição entre estas duas províncias, passámos pelo ponto de maior altitude do dia, no Puerto de Tornavacas, a 1.275 m.

Aqui bem perto, nos contrafortes da Sierra de Béjar (o sector mais ocidental da Sierra de Gredos), no Valle del Ambroz, encontra-se a pacata localidade de Hervás. Nesta povoação, que tem o bairro judeu como património histórico de maior destaque, está sediado o Museo de la Moto y el Coche Clásico, o qual merece uma atempada visita.

As curvas e contracurvas da Sierra de Gredos (província de Cáceres).

Chegámos a Plasencia ao final da tarde, ainda com tempo para uma visita ao Casco Antíguo desta importante cidade da província de Cáceres, às margens do Rio Jerte, na comunidade autónoma da Extremadura.

O Hotel Alfonso VIII, um hotel clássico, senhorial e bem situado no centro histórico, a cerca de 200 m (3 min. a pé) da Plaza Mayor, foi o escolhido pela organização para acolher todo o grupo do Best Pirinéus Tour 2025. Sem possibilidade de estacionar as motas junto à unidade hoteleira, felizmente que o acordo estabelecido entre o hotel e um parque de estacionamento público nas proximidades, permitiu deixar as motas em segurança durante a estadia.

Plasencia conta com um centro histórico que é fruto da sua estratégica localização em plena Ruta de la Plata. Esta localidade foi habitada por romanos e árabes até que, no Séc. XII, Alfonso VIII a reconquistou e repovoou. O seu traçado medieval mostra-se claramente nos restos da sua muralha (construída nos finais do Séc. XII), entre os quais se destacam torreões e portas, como a do Sol ou o postigo de Santa María. A Catedral Vieja e a Catedral Nueva, a primeira construída entre os Séc. XIII e XIV (de estilo românico) e a segunda projetada em finais do Séc. XV (o templo mais ornamentado e ricamente decorado da Extremadura), são dois dos ex-libris da cidade.

Catedral Nueva de Plasencia.

Puerta de Trujillo (vista intramuros), Plasencia.

Palacio del Marqués de Mirabel (escudo com as armas de Zúñiga y Ayala, primeiros marqueses de Mirabel), Plasencia.

No centro de Plasencia fica a sua Plaza Mayor, lugar de reunião para moradores e visitantes dentro do recinto amuralhado da cidade, especialmente durante a celebração do Martes Mayor, uma festa anual de Interesse Turístico Regional. Um lugar perfeito para descansar e degustar a excelente gastronomia extremenha, onde se pode experimentar pratos de cogumelos, escabeches, trutas e cabrito, tanto assado como guisado. A mesa extremenha oferece ainda presunto ibérico da Dehesa de Extremadura, queijos de La Serena e cerejas do Vale do Jerte, todos com Denominação de Origem.

Palacio municipal (Ayuntamiento de Plasencia), com a torre sineira que alberga o símbolo da cidade: o Abuelo Mayorga (um autómato que informa as horas à população) e com o anúncio da festa Martes Mayor.

Queijo de cabra extremenho ‘El Cabrón’! LOL

E para não variar, considerando a grande oferta ao nível da restauração local, o jantar foi uma vez mais de escolha livre para todos os participantes. Um grupo alargado acabou por se juntar numa esplanada da Plaza Mayor, mais precisamente no Bar Café Torero, para aquele que seria o último jantar-convívio do tour, com as peripécias da viagem a servirem de mote para agradáveis momentos de boa disposição entre todos.

Animação no jantar-convívio na Plaza Mayor (Plasencia).

No final, regressámos ao hotel com um sentimento de alguma nostalgia. O Best Pirinéus Tour 2025 tinha praticamente chegado ao fim. O dia seguinte estava reservado para o regresso a casa de toda a caravana.

Continua...

sábado, 4 de abril de 2026

Páscoa Feliz


Uma Páscoa com gasolina no depósito para muitos e bons quilómetros de mota, são os votos da ‘Fita de Asfalto’ para todos os motociclistas.

terça-feira, 24 de março de 2026

Best Pirinéus Tour 2025 #6/8

Dia 6 (31/07/2025): Jaca – Cabo Higuer – Vitoria

Este dia marcava a chegada ao Mar Cantábrico (Golfo da Biscaia), final simbólico da nossa travessia dos Pirenéus (Transpirenaica). Contudo, o 6.º dia do tour tinha reservado mais uma jornada repleta de aventuras e de grande beleza e interesse, com a passagem no pass de Roncesvalles, em Saint-Jean-Pied-de-Port, e muito mais.

Dia 6 – 370 km.

A caravana do Best Pirinéus Tour 2025 foi para a estrada à hora habitual, pelas 08h30, depois de cumpridas as já rotineiras tarefas matinais com a tomada do pequeno-almoço, a arrumação da bagagem e a lubrificação das correntes das motas (para os não BMW GS...).

Com a Serra de Leyre em pano de fundo, a rota do tour levou-nos pelo vale do Rio Aragón a caminho da comunidade autónoma de Navarra. Esta cordilheira forma um corredor entre Navarra e Aragão, uma passagem histórica utilizada por aqueles que viajavam de um reino para o outro. O Caminho de Santiago passa por ali onde, seguindo a variante de Toulouse, os peregrinos atravessavam os Pirenéus via Jaca.

Nesta região dos Pirenéus Navarros a caminho de França destaca-se o Bosque de Irati, uma das maiores e mais belas extensões de floresta nativa da Europa. A área oferece emocionantes rotas de montanha e paisagens naturais deslumbrantes para desfrutar de mota. Para além da sua beleza natural, o Bosque de Irati é um local repleto de vida selvagem, com uma riqueza de animais e plantas autóctones. Pode-se parar nos miradouros e apreciar a vista da região e da sua vida selvagem.

Entretanto, o céu ia ficando cada vez mais fechado. Uma chuva miudinha mas persistente levou a uma paragem para vestir os fatos impermeáveis, junto à La Posada de Roncesvalles, onde aproveitámos para tomar um café e aquecer um pouco. E se dúvidas houvesse, aqui está a prova provada de que o fato de chuva deve sempre fazer parte da bagagem de qualquer viagem de mota, independentemente da altura do ano em que se realize.

A vila de Roncesvalles é conhecida por ser um importante ponto de passagem na rota de peregrinação do Caminho de Santiago. Foi o cenário da Batalha de Roncesvalles em 778 d.C., onde a retaguarda do exército de Carlos Magno, liderada pelo cavaleiro Roldán, foi derrotada. Este evento inspirou a famosa epopeia medieval o “Cantar de Roldán”. É também um destino popular para os motociclistas que procuram emocionantes rotas de montanha.

Enquanto aguardava pelo retomar da marcha, reparei num grupo de três motas clássicas estacionadas nas imediações da pousada. Com natural curiosidade, percebi que estava na presença de uma Velocette de 1938, de uma Cemec L7 750 cc de 1951 e de uma Terrot (provavelmente uma RGST 500 cc da década de 1950), todas bem conservadas e carregadas de bagagem. Verdadeiras viajantes de outros tempos.

Velocette de 1938.

Cemec L7 750 cc de 1951.

Terrot (provavelmente uma RGST 500 cc da década de 1950).

Lembrei-me de imediato da BSA 500 cc de 1936 que tinha visto na véspera, a caminho do Col d’Aubisque. Seria coincidência? Estariam de algum modo relacionadas? A resposta veio através de uma placa colocada na lateral de uma das motas, com a indicação 7e Tour Basco-Béarnais de Motos Anciennes. Estava desvendado o mistério. Tratava-se de um evento turístico de 4 dias pelos Pirenéus Atlânticos (País Basco - Béarn), incluindo algumas passagens de montanha lendárias do Tour de France, reservado a motas de época até 1965 e organizado pelo clube de motas antigas Les Pétochons Pyrénéens, de Bugnein (França). Valentes!

De novo na estrada e um pouco mais à frente surgia o Porto de Ibañeta (Passo de Roncesvalles), o local de maior altitude (1.057 m) que foi transporto neste 6.º dia do tour. Aqui encontra-se a Capela de San Salvador (construída em 1965 sobre ruínas de 1127, que historicamente servia para guiar peregrinos com o toque de um sino em dias de nevoeiro) e um memorial em pedra dedicado a Roldán.

A fronteira com França já não estava longe, o que acontece com a travessia do curso do Nive d'Arnéguy. O caminho até lá foi percorrido num intenso ziguezaguear que fez as delícias de todos os condutores e respectivas motas.

Inserida na confluência dos rios Nive e Laurhibar, Saint-Jean-Pied-de-Port deve o seu nome à sua localização ao pé do passo de Roncesvalles. Antiga capital política e administrativa da Baixa Navarra, é hoje um centro económico, cultural e desportivo do País Basco francês. É também uma paragem na peregrinação a Santiago de Compostela, com cerca de 60.000 peregrinos por ano. Esta localidade medieval cativa todos os que lá chegam com as suas ruas calcetadas, a ponte sobre o rio Nive e a sua imponente cidadela.

Saint-Jean-Pied-de-Port é um local repleto de história e charme, com um centro histórico que alberga vários edifícios e monumentos históricos. A Igreja da Assunção da Virgem (Eglise de l'Assomption de la Vierge) é um dos marcos mais emblemáticos da cidade, oferecendo vistas deslumbrantes para as montanhas e para o vale circundante. Em 2016, foi admitida na associação das Aldeias Mais Belas da França.

Daqui até ao Vale de Baztán é um pulinho. Esta bela zona rural na província de Navarra é conhecida pelas suas montanhas verdejantes, vales férteis e riachos cristalinos. Um local popular para os amantes da natureza e entusiastas de desportos ao ar livre. Para além da sua beleza natural, o Vale de Baztán é também conhecido pela sua rica história e património cultural. A área alberga muitos monumentos e edifícios históricos, como a Igreja de San Esteban, o Castelo de Olite e o Mosteiro de Iratxo.

As casas no País Basco francês, conhecidas como Etxea (casa, no idioma basco), destacam-se pelo seu estilo simétrico, fachadas brancas, madeirame colorido (maioritariamente vermelho) e telhados de duas águas. Muito mais do que uma casa, representa a continuidade da família e o património. Estas habitações tradicionais são um ícone da arquitetura local.

As fachadas brancas e o madeirame vermelho nas casas do País Basco francês.

O Golfo da Biscaia e o Mar Cantábrico estavam cada vez mais perto. Mas até lá chegar impunha-se uma importante paragem para repor os níveis de energia dos condutores. O sempre bem-vindo almoço acabou por ter lugar no Kinka Restaurant Et Bar, perto da localidade de Saint-Pée-sur-Nivelle, onde tive a oportunidade de experimentar pela primeira vez uma Euskola, a cola do País Basco. E não fiquei desiludido, diga-se.

Euskola, a cola do País Basco.

Pouco mais de duas dezenas de quilómetros depois e já com Hondarribia à vista, a entrada em Espanha acontece com travessia do rio Bidasoa, junto à sua foz, que representa também a entrada na província de Gipuzkoa.

Hondarribia é uma charmosa cidade costeira de Gipuzkoa, no País Basco espanhol. Destaca-se pelo seu centro histórico amuralhado, repleto de edifícios senhoriais e que foi declarado Monumento Histórico-Artístico, pelo colorido bairro de pescadores da Marina, excelente gastronomia (especialmente pintxos e marisco) e uma praia tranquila.

No recinto amuralhado, na parte mais alta da cidade está situada a praça de Armas, num dos lados fica o Castelo do Imperador Carlos V, onde hoje funciona o Parador de Turismo, estendendo-se junto ao mar o bairro de La Marina. Este núcleo marítimo, possivelmente o mais antigo da vila, oferece a atmosfera mais popular de Hondarribia. Nas suas ruas, especialmente na de San Pedro, há uma sequência de típicas casas de marinheiros pintadas com cores vibrantes, onde se encontrará o lugar ideal para um passeio ou um aperitivo.

Hondarribia, charmosa cidade costeira de Gipuzkoa (País Basco).

A 4 quilómetros de distância para Norte fica o ponto mais oriental do Mar Cantábrico, o Cabo Higuer, que marca o confim noroeste dos Pirenéus. A chegada ao farol (Faro de Higuer) marcou também o final simbólico da nossa travessia dos Pirenéus (Transpirenaica). Um magnífico passeio de quatro dias com muitas curvas, diversas subidas, descidas e travessias de alta montanha, por locais fantásticos e paisagens arrebatadoras, tudo em boa companhia. Assim vale apena!

A chegada ao Cabo Higuer (País Basco, Espanha).

Farol do Cabo Higuer, final simbólico da nossa Transpirenaica (País Basco, Espanha).

Apesar de termos concluído com sucesso a travessia dos Pirenéus, o 6.º dia do tour ainda não tinha terminado. A tarde ia só a meio e como a organização tinha estabelecido que a caravana ficaria alojada a cerca de 120 km de distância, arrancámos depois do Cabo Higuer em direcção à cidade de Vitoria, na província de Álava.

Na descida para Hondarribia fomos brindados com uma fantástica vista sobre a costa basco-francesa, onde se destacam as praias de areia dourada de Hondarribia e de Hendaye, na Baía de Chingudi. Esta é uma baía formada pelo estuário do rio Bidasoa, entre as cidades de Hondarribia e Irún (Espanha) na margem esquerda e Hendaye (França) na margem direita.

Vista para as praias de Hondarribia (Espanha) e de Hendaye (França), na Baía de Chingudi.

Deixámos assim para trás a montanha e as estradas reviradas para voltarmos a abraçar a estrada aberta e as vias rápidas. Um trajecto que inicialmente seguiu pela costa junto ao Mar Cantábrico, acabou depois necessariamente por mudar de rumo em direcção ao interior do território espanhol.

Foi já com a caravana um pouco dispersa que chegámos a Vitoria (oficialmente Vitoria-Gasteiz), um município da Espanha, na província de Álava (País Basco). O destino final foi o Sercotel Boulevard Vitoria, local de alojamento para todos os participantes. O estacionamento das motas foi desta vez efetuado sem constrangimentos, onde até foi possível escolher entre o parque exterior junto ao hotel ou o seu parque subterrâneo.

Devidamente instalados e com o hotel a cerca de 2 km (20 min. a pé) do centro histórico da cidade, foi para lá que nos dirigimos para visitar o seu característico Casco Viejo. Fundada no final do Séc. XII, Vitoria é hoje uma cidade com um projeto urbanístico exemplar. Conserva um centro medieval onde é possível encontrar diversos lugares de sabor tradicional, como a Praça da Virgem Branca, e edifícios históricos, como a Catedral de Santa María.

Muralha Medieval (Vitoria, País Basco).

Torre octogonal da Catedral de Santa María (Vitoria, País Basco).

A capital basca revela um centro histórico onde é possível encontrar lugares encantadores, jardins e passeios arborizados que fazem da capital alavesa um pulmão verde sem abrir mão de um urbanismo bem cuidado, onde ruas medievais se misturam harmoniosamente com palácios renascentistas e igrejas neoclássicas. O centro nevrálgico da cidade é a Praça da Virgem Branca, onde se destaca o monumento à batalha de Vitoria. Nela se situa a Igreja de San Miguel, que guarda a imagem da Virgem Branca, padroeira da cidade. Na parte mais alta da cidade situa-se a Catedral de Santa María ou Catedral Velha, um magnífico templo gótico cuja construção foi iniciada no Séc. XIII e se prolongou durante o século seguinte.

Edifício do Centro Cultural (Vitoria, País Basco).

Junto ao Palácio Villa-Suso, com a Catedral de María Imaculada ou Catedral Nova em fundo (Vitoria, País Basco).

Uma vez mais com toda a liberdade para escolher um local a gosto para jantar, acabámos por nos sentar à mesa no restaurante Le Basque, situado na ladeira da Almendra Medieval (o apelido do centro histórico de Vitoria, conhecido pela sua forma elíptica que lembra uma amêndoa e por ser um dos núcleos medievais mais bem preservados do país), em plena Plaza del Machete e ao lado do Palácio Villa-Suso, para degustar as iguarias locais.

Depois de interessantes histórias e peripécias partilhadas de forma animada durante a refeição, seguiu-se um pequeno passeio by night pelas ruas medievais do casco antiguo, prosseguindo depois para o hotel para repousar o esqueleto. Até porque no dia seguinte regressaríamos às longas tiradas, com mais de cinco de centenas de quilómetros em perspectiva.

Continua...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Arthur Lampkin RIP

Com um glorioso palmarés no FIM Motocross Grand Prix and Trophee des Nations, Six Days of Enduro e Scottish Six Days Trial, o piloto britânico Arthur Lampkin deixou-nos no passado dia 21 de fevereiro, quando ia completar a bonita idade de 88 anos.

Arthur Lampkin (1938-2026). Via

Filho mais velho de uma dinastia motociclista de Yorkshire, Arthur Lampkin competiu em diversos eventos de motociclismo off-road, como trial, motocross e enduro. Na década de 1960, Lampkin tornou-se membro da equipa de fábrica BSA junto com seu irmão Alan. Juntamente com Dave Bickers e Jeff Smith, fez parte de um grupo de motociclistas britânicos que dominou o motocross nessa época.

Arthur Lampkin venceu o campeonato nacional britânico de motocross 500cc em 1959 e o campeonato nacional britânico de motocross 250cc em 1961, o mesmo ano em que foi vice-campeão mundial de 250cc. Foi membro de duas equipas britânicas vencedoras do Trophée des Nations (1961, 1962) e cinco vitórias consecutivas como membro da equipa britânica de Motocross des Nations (1963-1967).

A tenacidade que demonstrava nas diversas competições de off-road, levou-o a vencer eventos prestigiados como o Scottish Six Days Trial de 1963 e o Scott Trial em 1960, 1961 e 1965. Lampkin também competiu internacionalmente em eventos de enduro, representando a Grã-Bretanha e conquistando a medalha de ouro no International Six Days Trial de 1966, realizado na Suécia.

Arthur Lampkin no Motocross Des Nations (1967). Via

Os irmãos mais novos de Arthur Lampkin, Alan e Martin Lampkin, também tiveram sucesso em competições de motociclismo off-road. Alan venceu o campeonato britânico de trial, enquanto Martin tornou-se campeão britânico de trial, além de vencer a primeira edição do Campeonato Mundial de Trial da FIM, em 1975. Para os mais distraídos, de referir que Martin Lampkin é o pai de Dougie Lampkin, um dos maiores pilotos de trial de todos os tempos, com 12 títulos de Campeão Mundial (durante a década de 90 e no início deste século), e que chegou a competir diversas vezes em Portugal.

Arthur Lampkin faleceu aos 87 anos, após uma luta contra o cancro.

R.I.P.