segunda-feira, 20 de julho de 2026

X Lisbon Motorcycle Film Fest

A 10.ª edição do Lisbon Motorcycle Film Fest (LxMFF 2026), realizada entre os dias 22 e 24 de maio de 2026, celebrou uma década de união entre o cinema e a cultura das duas rodas no Cinema São Jorge. O evento deste ano consolidou-se como o maior ponto de encontro nacional para realizadores, construtores de motas e aficionados, expandindo-se pela primeira vez para fora das salas de cinema convencionais.

Cartaz oficial do LxMFF 2026. Via

O dia de Sábado, tradicionalmente o mais preenchido em termos das actividades programadas, foi o escolhido para a minha deslocação a este (já) grande evento, que em 2026 celebrou 10 anos de muitos quilómetros de “película”, terra e asfalto.

Muitas e variadas motas marcaram presença no X LxMFF.

Uma vez mais, os motociclistas tiveram um espaço à disposição para deixarem os seus capacetes e blusões, circulando assim mais à vontade para disfrutar do cenário montado pela organização alusivo à temática do evento montado nos foyers (piso 0 e piso 1) do Cinema São Jorge. Nestes espaços encontravam-se expostas cinco motas, com destaque para a gama Heritage da BMW com as big boxer R 18:

BMW R 18.

BMW R 18.

BMW R 18 Classic.

Norton Manx R Signature.

Honda WN7.

O programa do X LxMFF para este dia teve início pelas 15h00 com a 1.ª sessão de curtas-metragens na Sala Manoel de Oliveira (bilhete: 5,00 €), onde foram exibidos 6 pequenos filmes:

Passion Not Taught – It Is Passed On
5’12” / Benedikt Merten / Alemanha / 2026
Um olhar sobre a jornada de Michael Weber na criação do Craftwerk Berlin um refúgio físico em plena era digital, onde o trabalho manual e a partilha presencial substituem os algoritmos para manter viva a verdadeira paixão pelo motociclismo.

Rally Kats
12’44” / David Martinez / EUA / 2025
Kiyo e Kat, um casal japonês apaixonado pela cultura americana clássica, atravessam os Estados Unidos da América de costa a costa em motas com mais de cem anos, numa prova de resistência que testa a sua resiliência e devoção.

Why I Ride
7’45” / Matt Lara / EUA / 2025
“Why I Ride” acompanha Kurt e Dylan Winter, da Valley Cycles, em Los Angeles, enquanto restauram motas Honda clássicas e refletem sobre o legado da CB750. É em parte uma história de família, uma lição de história e, principalmente, uma carta de amor ao motivo pelo qual andamos de mota em primeiro lugar.

The Malle Mile
5’15” / Charlie Bristow / Inglaterra / 2026
Uma visão sobre o festival de corridas de motas mais “inapropriado” do Reino Unido. Realizado anualmente nos terrenos de castelos ingleses, o evento foca-se mais na diversão e na cultura do que na competição séria.

The Intensity of a Natural Path
7’12” / Konstantin Dellos / Alemanha / 2026
Um retrato íntimo sobre a Maria Riding Company e a filosofia de um dos seus criadores, explorando como o punk rock, o surf e a personalização de motas se fundem numa busca constante pela intensidade e pelo trabalho manual autêntico.

Newcombers
5’56” / Aaron Romo / EUA / 2026
Liz Sands e o seu parceiro Tank vivem no isolado e icónico Newcomb’s Ranch, onde se dedicam a um treino intensivo para alcançarem o sonho de se tornarem pilotos profissionais de motociclismo.

Os cartazes das 10 edições do Lisbon Motorcycle Film Fest (LxMFF).

Seguiu-se por volta das 16h00 a sessão Talk “Diaries Of Travel” na Sala 2 (bilhete: 1,00 €), uma cativante apresentação do simpático casal Anabela e Jorge, viajantes a tempo inteiro desde 2015. O Jorge nasceu no Luxemburgo e a Anabela nasceu em Portugal. Conheceram-se em 2004 e, desde então, têm partilhado as aventuras e as viagens da vida.

Em 2013, tiraram uma licença sabática do trabalho e viajaram pela América Latina de mota. Quando regressaram, perceberam rapidamente que as suas vidas tinham mudado. Perceberam que não queriam passar oito horas por dia enfiados num escritório. Foi então que deixaram os seus empregos para se dedicaram a tempo inteiro a um novo projeto nascido da sua viagem: Diaries Of é um testemunho real de viagens que tem como objetivo inspirar as pessoas a explorar o mundo.

“Diaries Of”: Um testemunho real de viagens para inspirar as pessoas a explorar o mundo.

A 2.ª sessão de curtas-metragens teve depois início às 17h30 na Sala Manoel de Oliveira (bilhete: 5,00 €), com a exibição de 3 pequenos filmes:

Slowing Going Faster
24’25” / David Martinez / EUA / 2025
Uma meditação sobre a velocidade e o tempo que acompanha o mestre construtor Alp Sungurtekin no regresso a Bonneville, onde persegue recordes em máquinas criadas pelas suas próprias mãos.

The Big Ride
26’/ Séverine de Streyker/ Bélgica, Alemanha/ 2025
Privado da sua oficina em Berlim devido à especulação imobiliária, Billy, um restaurador de motas antigas, decide fugir na sua mota, embarcando numa viagem poética em busca de uma vida mais fiel a si mesmo.

The Prairie Pirates
9’25” / Mike Smith / EUA / 2025
Mike e Brady atravessam as paisagens do Nebraska em busca de motas de motocross antigas, descobrindo pelo caminho que as verdadeiras relíquias são as aventuras e as histórias que ficam para contar.

Logo após a exibição destas “curtas”, a organização chamou ao palco o realizador Mike Smith para partilhar com a plateia a sua experiência na produção da curta-metragem “The Prairie Pirates”.

Pequena conversa com Mike Smith, realizador da curta-metragem ‘The Prairie Pirates’.

Para celebrar os 10 anos do Lisbon Motorcycle Film Fest e como parte integrante do programa, a organização decidiu (literalmente) elevar a parada até ao terraço do Cineteatro Capitólio, no Parque Mayer, onde decorreu o LxMFF Skytop Bike Show (entrada livre).

A apenas 3 minutos a pé do Cinema São Jorge, lá bem no alto e sob a luz única de Lisboa, estiveram duas dezenas de motas em exposição – customizadas e históricas – numa parceria com a Guarda Nacional Republicana. Os modelos customizados foram da autoria da Bandit Garage, Bobbers & Brothers Garage, Cafeina Motorcycles, Flytox Custom, Holy Moly Motorcycles, iT Rocks!Bikes, Iron Custom Motors, Pitta Designs, Rusty Wrench Motorcycles e Unik Motorcycles.

Skytop Bike Show no terraço do Cineteatro Capitólio.

A sessão nocturna estava agendada para as 21h00, uma vez mais na Sala Manoel de Oliveira (bilhete: 5,00 €), onde foi exibida uma única longa-metragem:

Racing Mister Farenheit
83' / Michael Rowley / EUA / 2024
Bobby Haas, um antigo magnata de 74 anos, abandona o mundo dos negócios para perseguir um “toque de imortalidade”, tentando bater um recorde mundial de velocidade em Bonneville com uma mota de sidecar construída à mão.

Na minha opinião, a escolha acabou por não ser a mais feliz para o final de um dia de celebração do cinema e das motas. “Racing Mister Farenheit” é um documentário soturno, demasiado intimista, que sofre com um ritmo lento e que, pelo desenrolar da narrativa, acaba por se tornar sombrio e triste, tal como a dura realidade que retrata. E se há algo de positivo a reter depois de ver o filme, deverá ser, sem dúvida, que a vida é para ser vivida!

O convívio e a boa disposição sempre presentes no LxMFF.

Para elevar o espírito e num ambiente que se quer de boa disposição, a entrada do Cinema São Jorge foi a sala de estar dos participantes, onde, por entre dois dedos de conversa e umas fresquinhas (sem álcool, claro), aguardavam pelo início da “Make A Life a Night Ride”, o icónico passeio nocturno de mota por Lisboa, com início e fim na Av. da Liberdade n.º 175, culminando pela noite dentro com a Garage Party.

O desfile das motas pelas ruas de Lisboa na icónica Night Ride.

Para todos aqueles que não estiveram presentes no evento, aqui fica um pequeno resumo do mesmo:


sexta-feira, 5 de junho de 2026

Calhou-me a fava!

A expressão “calhou-me a fava” significa que a pessoa ficou com a pior parte, a tarefa mais difícil ou ingrata de uma situação. Originária da tradição do Bolo-Rei, quem encontra a fava seca na fatia assume o custo ou responsabilidade do próximo bolo. É sinónimo de azar ou de um encargo inesperado.

Ora foi precisamente o azar e um encargo inesperado que me levam a escrever estas linhas, em tom de desabafo.


Para contextualizar as coisas, em 2019 decidi substituir a minha Honda VFR 800Fi de 2001 por uma Trimph Tiger 800XRX nova. A troca de uma sport-touring por uma adventure-touring teve como principal objectivo a procura de um pouco mais de conforto nas minhas deslocações, especialmente em viagens mais longas, onde os quilómetros acumulados já vão deixando algumas marcas no corpo.

Não há dúvida que a Tiger 800 tem demonstrado ser um modelo ideal para quem procura uma mota fácil de conduzir, ágil, potente q.b., confortável, capaz de transportar com à-vontade passageiro e bagagem e que permite enfrentar sem problemas qualquer tipo de estrada ou caminho. As viagens que tenho efectuado aos seus comandos são disso um bom exemplo, em cenários tão diferentes como a Ilha da Madeira, Marrocos ou os Pirenéus.

Estava assim longe de imaginar que, apenas 7 anos e cerca de 40.000 km depois, as coisas acabariam por descambar. Num dia igual a tantos outros, logo após ter saído de casa, fui surpreendido por um inesperado mau funcionamento ao nível do motor da Tiger 800. Apesar de não ter formação em mecânica, apercebi-me logo que deveria estar perante um problema sério.

Mais tarde, já no concessionário da Triumph em Lisboa e após uma intervenção de “coração” aberto, o diagnóstico indicou uma falha ao nível dos componentes do motor, mais concretamente um acentuado desgaste nas capas das bielas. A causa não foi identificada, mas o prejuízo iria ser inevitavelmente elevado, na ordem de alguns milhares de euros!

Incrédulo, questionei como foi possível o motor ter sofrido um desgaste tão prematuro e com consequências tão gravosas? Ainda para mais, sabendo que todas as manutenções da mota foram efectuadas no concessionário e dentro dos prazos definidos pela marca? Quem deveria então assumir a responsabilidade pelo sucedido?

Era espectável, achava eu, que uma marca como a Triumph, referência no setor das duas rodas e que prima pela qualidade dos seus produtos, devesse, de alguma forma, chamar a si o ónus desta situação. Senão na totalidade, pelo menos parcialmente, para salvaguarda do seu bom nome e da satisfação dos seus clientes.

Na prática, a posição da Triumph Lisboa sobre este assunto foi simplesmente a de imputar a responsabilidade total da reparação ao cliente. Isto apesar do reconhecimento da improbabilidade da ocorrência reportada no motor da Tiger 800!!!

E nem mesmo uma exposição à Triumph Motorcycles Limited (Hinckley) sobre esta inesperada, repentina e grave avaria, levou a um desfecho diferente, alegando que: “Considerando que o período de garantia da sua Tiger expirou há algum tempo, receio que não possamos ajudá-lo com esta questão. Embora realizemos testes rigorosos às nossas motos, existirão sempre vários fatores fora do nosso controlo que podem influenciar um problema. Assim sendo, embora lamentemos estas circunstâncias, não existe uma solução alternativa que lhe possa oferecer”. Pois...

No final de todas estas peripécias e independentemente do seu desfecho, uma coisa é certa, a minha confiança na marca Triumph e nos seus produtos (motas), foi severamente abalada e nunca mais será a mesma. Manter-me como cliente Triumph? Certamente que não será por muito mais tempo.

Definitivamente, é caso para dizer que me calhou a fava!

terça-feira, 12 de maio de 2026

Best Pirinéus Tour 2025 #8/8

Dia 8 (02/08/2025): Plasencia – Regresso a casa

Na prática, o Best Pirinéus Tour 2025 tinha terminado no dia anterior. Mas na verdade, qualquer tour só fica verdadeiramente concluído quando todos os motociclistas chegam aos seus destinos. Sãos e salvos.

Por estarmos já tão perto de Portugal e devido ao interesse manifestado por alguns dos participantes, a organização decidiu então que a viagem de regresso seria efectuada de forma livre por cada um dos elementos do grupo.

Dia 8 – 170 km.

Assim, após o pequeno-almoço tomado ainda no hotel e com a moto devidamente preparada, o regresso a Portugal teve início a meio da manhã, uma vez que não houve necessidade de ter de cumprir um horário pré-estabelecido para a saída, como tinha sucedido nos dias anteriores.

Sem pressas e em ritmo de passeio, cerca de 90 km depois, pela Ruta de la Plata (N-630), chegámos à localidade de Cáceres, capital da província homónoma, onde aproveitámos para visitar ao seu centro histórico, também conhecido como Ciudad Monumental, Ciudad Vieja de Cáceres ou Barrio de Intramuros.

Cáceres é uma das cidades declaradas Património da Humanidade de Espanha. Com o terceiro maior complexo monumental da Europa, nesta cidade viaja-se no tempo até à época do Renascimento e, sobretudo, para a Idade Média graças às ruas, praças, palácios e muralhas especialmente bem conservados.

Praça de Santa María (uma das mais importantes da cidade, onde fica a Concatedral de Cáceres, o Palácio Episcopal, o Palácio de Hernando de Ovando, o Palácio de los Mayoralgo, o Palácio Provincial e o Palácio de los Golfines de Abajo).

Concatedral de Cáceres (igreja com origem no Séc. XIII, mas que, após sua destruição, foi reconstruída como é agora durante os Séc. XV e XVI).

Arco de la Estrella (principal porta de entrada no recinto cercado de muralhas de Cáceres).

Praça de San Jorge, com a Igreja de San Francisco Javier (igreja jesuíta de estilo barroco construída no Séc. XVIII).

Sefarad (nome em língua hebraica para a Península Ibérica), símbolo associado aos Sefarditas antes da sua expulsão em 1492 (Espanha) e 1496 (Portugal).

Casa-Museu Árabe Yusuf Al-Burch (casa árabe do Séc. XII, erigida sobre um recinto romano antigo, cuja reconstrução deu origem ao actual museu inaugurado em 1976).

Entretanto, o calor já se fazia sentir com alguma intensidade, como é habitual nesta altura do ano na Extremadura espanhola. Depois da visita a pé ao centro histórico, uns momentos de relaxamento à sombra de uma esplanada vieram mesmo a calhar. Aproveitámos também a oportunidade para comprar alguns produtos tradicionais da gastronomia local, nomeadamente quesos e embutidos, deixando assim a top case bem aromatizada para o resto da viagem.

De novo na estrada, uma tirada final de cerca de 90 km pela N-523 levou-nos de regresso a Badajoz e ao ponto de encontro do 1.º dia do tour, na Área de Serviço de Badajoz (Autovía del Suroeste). Aqui foi efectuado o último abastecimento a preços “mais simpáticos”, antes da entrada em Portugal para o regresso a casa. Estava assim “fechado o círculo” no trajecto do Best Pirinéus Tour 2025.

Resumo

A Rota Transpirenaica em moto é uma das viagens mais desafiantes e espetaculares para os motociclistas. Esta rota atravessa a Cordilheira dos Pirenéus, ligando o Mar Mediterrâneo ao Mar Cantábrico e estende-se por aproximadamente 800 quilómetros.

Na verdade e em sentido lato, a Transpirenaica (travessia dos Pirenéus) pode ser percorrida tanto de Sudeste para Noroeste, como de Noroeste para Sudeste. O ponto de partida e o ponto de chegada podem ser os mais variados, em locais como Roses, Cadaqués, Cabo de Creus (a Sudeste) ou em San Juan de Luz, Hendaya, Hondarribia, Cabo Higuer, San Sebastián (a Noroeste), para mencionar apenas alguns.

O que é verdadeiramente importante é apreciar a travessia desta magnífica zona montanhosa, serpenteando entre Espanha e França com uma forte componente de descoberta, passando por regiões de grande interesse histórico, cultural e paisagístico. Os locais de paragem ao longo do trajecto podem ser efectuados onde e quando se achar mais conveniente.

Grandiosas e deslumbrantes paisagens aguardam os motociclistas nos Pirenéus.

De uma forma simplista, num tour de 8 dias onde o objetivo fica a 1.000 km de distância, poder-se-á dizer que são 4 dias de obrigação (com paragens a cada 250/300 km para abastecer durante a viagem), para 4 dias de satisfação (com percursos diários de cerca de 300 km para disfrutar da paisagem). Uma inevitabilidade, é certo, mas na realidade acabam por ser 8 dias cheios de excelentes aventuras, camaradagem e espírito de grupo, sempre com as motas como denominador comum. Nada mal.

Sendo um tour com contornos muito próprios, que se desenrola numa zona de grande beleza, em ambiente de alta montanha e de deslumbrantes vales, é importante realçar que o mesmo carece de alguma disciplina e rigor, em especial no que diz respeito aos horários de saída, para que se possa aproveitar em pleno tudo o que cada dia irá proporcionar.

No acesso ao Cabo de Creus, é também importante ter em atenção as restrições que são impostas aos veículos motorizados que circulam na estrada entre Cadaqués e o Farol do Cabo de Creus, especialmente durante os meses de maior afluxo de turistas, tal como nos sucedeu no 3.º dia do tour.

No final, deixo um agradecimento e uma nota muito positiva à organização (G2 Aventuras Ilimitadas), na pessoa do Jorge Gameiro, que não se poupou a esforços para proporcionar uma fantástica travessia da cordilheira transpirenaica a todos os 26 participantes (22 motas) do Best Pirinéus tour 25.

domingo, 26 de abril de 2026

Best Pirinéus Tour 2025 #7/8

Dia 7 (01/08/2025): Vitoria – Plasencia

Um misto de autoestradas e de estradas nacionais levaria a caravana do Best Pirinéus Tour 2025 até bem perto do território português. O destino seria a cidade de Plasencia (Extremadura), com uma paragem sensivelmente a meio do percurso em Tordesillas (Castilla y León), localidade histórica onde, no Séc. XV, foi acordada a divisão do mundo entre o reino de Portugal e o reino de Espanha.

Dia 7 – 520 km.

Cumprindo o horário habitual, despedimo-nos da cidade de Vitoria-Gasteiz perto das 08h30, logo após a azáfama matinal da tomada do pequeno-almoço no hotel, da arrumação da bagagem e da lubrificação da corrente da mota.

Com um pouco mais de cinco centenas de quilómetros para percorrer neste 7.º dia do tour, a primeira metade do percurso acabou por ter pouca história. As motas foram paulatinamente cumprindo a rota traçada ao longo das autovias/autopistas das regiões espanholas do País Vasco e de Castilla y León, onde não houve grandes motivos dignos de registo a quebrar a monotonia da viagem.

Sem locais pré-definidos para abastecer as motas e com o grupo já um pouco desagregado entre si, fruto do trânsito e das muitas ultrapassagens efectuadas ao longo do trajecto, lá chegou o momento de ter de parar numa estação de serviço para colocar combustível na mota. Ao retomar a viagem, acabei por seguir praticamente sozinho, guiado apenas pelo track fornecido pela organização e na companhia do último dos participantes que vinha a fazer de “mota-vassoura” não oficial.

Chegámos com calor à principal paragem do dia, em Tordesillas, a tempo de nos juntarmos aos restantes elementos para uma visita a um dos locais mais emblemáticos da cidade, as Casas del Tratado (Museu). Declaradas Bem de Interesse Cultural, trata-se de dois palácios unidos, que receberam este nome porque em 7 de junho de 1494 foi aqui assinado o Tratado de Tordesilhas. Celebrado entre o Reino de Portugal e a Coroa de Castela, serviu para dividir as terras “descobertas e por descobrir” no Novo Mundo por ambas as Coroas (foi definida como linha de demarcação, o meridiano 370 léguas a oeste da ilha de Santo Antão no arquipélago de Cabo Verde).

Museu do Tratado de Tordesilhas, onde o mesmo foi assinado em 1494 (Tordesilhas).

Detentora dos títulos de “cidade muito ilustre, antiga, coroada, leal e nobre”, em Tordesillas destacam-se ainda outros monumentos e locais de interesse, tais como o Real Monasterio de Santa Clara (construído no local do antigo palácio mudéjar chamado “Pelea de Benimerín”, erigido em 1340 por Afonso XI de Castela após seu triunfo na Batalha de Salado, e financiado com o saque obtido nesse conflito. O seu filho Pedro, o Cruel, consertou-o e doou-o em 1363 às suas filhas Beatriz e Isabel para que pudessem transformá-lo num convento) e a Igreja-Museu de San Antolín (onde uma série de peças artísticas da própria igreja e várias outras da cidade são reunidas e exibidas, entre as quais destaca-se o túmulo da família Alderete. O edifício é uma igreja dos Séc. X e XVII, iniciada em meados do Séc. XVI e concluída por Gil de Reynaltos em 1644).

Merece também destaque a Igreja de Santa María (a maior igreja da cidade, construída em pedra e tijolos, entre os Séc. XVI e XVIII, com base gótica e evolução clássica), a Puente (não há referência à origem da atual ponte, nem data, nem vestígios, nem autores. A pontuação de seus arcos indica a sua origem medieval), a Muralla (cercava toda a cidade e tinha carácter fiscal e militar. Foi construída em pedra, tijolos e terra batida. Tinha quatro portões principais, que coincidem com os quatro pontos cardeais) e a Plaza Mayor, entre outros.

E foi precisamente na Plaza Mayor (uma praça toda com arcadas e com acesso pelas entradas de quatro ruas, cuja estrutura atual data do Séc. XVII, onde as casas de dois andares têm as lojas por baixo), localizada a cerca de 200 m das Casas del Tratado, onde acabámos por nos sentar na esplanada do restaurante Don Pancho para almoçar.

Almoço na Plaza Mayor (Tordesilhas).

O sol já ia bem alto, assim como o termómetro que indicava a temperatura ambiente. O ar quente e seco tornou-se num companheiro de viagem pouco desejado para a tirada da tarde, em mais umas centenas de quilómetros a rolar pelas regiões de Castilla y León e da Extremadura. As autovias/autopistas deram finalmente lugar às estradas nacionais, tornando assim o percurso bem mais interessante.

A travessia da Sierra de Gredos, cordilheira classificada como parque regional e um dos subsistemas montanhosos mais extensos do Sistema Central ibérico, trouxe maior animação à caravana, com o encadeado de curvas e contracurvas nas províncias espanholas de Ávila e Cáceres. Na transição entre estas duas províncias, passámos pelo ponto de maior altitude do dia, no Puerto de Tornavacas, a 1.275 m.

Aqui bem perto, nos contrafortes da Sierra de Béjar (o sector mais ocidental da Sierra de Gredos), no Valle del Ambroz, encontra-se a pacata localidade de Hervás. Nesta povoação, que tem o bairro judeu como património histórico de maior destaque, está sediado o Museo de la Moto y el Coche Clásico, o qual merece uma atempada visita.

As curvas e contracurvas da Sierra de Gredos (província de Cáceres).

Chegámos a Plasencia ao final da tarde, ainda com tempo para uma visita ao Casco Antíguo desta importante cidade da província de Cáceres, às margens do Rio Jerte, na comunidade autónoma da Extremadura.

O Hotel Alfonso VIII, um hotel clássico, senhorial e bem situado no centro histórico, a cerca de 200 m (3 min. a pé) da Plaza Mayor, foi o escolhido pela organização para acolher todo o grupo do Best Pirinéus Tour 2025. Sem possibilidade de estacionar as motas junto à unidade hoteleira, felizmente que o acordo estabelecido entre o hotel e um parque de estacionamento público nas proximidades, permitiu deixar as motas em segurança durante a estadia.

Plasencia conta com um centro histórico que é fruto da sua estratégica localização em plena Ruta de la Plata. Esta localidade foi habitada por romanos e árabes até que, no Séc. XII, Alfonso VIII a reconquistou e repovoou. O seu traçado medieval mostra-se claramente nos restos da sua muralha (construída nos finais do Séc. XII), entre os quais se destacam torreões e portas, como a do Sol ou o postigo de Santa María. A Catedral Vieja e a Catedral Nueva, a primeira construída entre os Séc. XIII e XIV (de estilo românico) e a segunda projetada em finais do Séc. XV (o templo mais ornamentado e ricamente decorado da Extremadura), são dois dos ex-libris da cidade.

Catedral Nueva de Plasencia.

Puerta de Trujillo (vista intramuros), Plasencia.

Palacio del Marqués de Mirabel (escudo com as armas de Zúñiga y Ayala, primeiros marqueses de Mirabel), Plasencia.

No centro de Plasencia fica a sua Plaza Mayor, lugar de reunião para moradores e visitantes dentro do recinto amuralhado da cidade, especialmente durante a celebração do Martes Mayor, uma festa anual de Interesse Turístico Regional. Um lugar perfeito para descansar e degustar a excelente gastronomia extremenha, onde se pode experimentar pratos de cogumelos, escabeches, trutas e cabrito, tanto assado como guisado. A mesa extremenha oferece ainda presunto ibérico da Dehesa de Extremadura, queijos de La Serena e cerejas do Vale do Jerte, todos com Denominação de Origem.

Palacio municipal (Ayuntamiento de Plasencia), com a torre sineira que alberga o símbolo da cidade: o Abuelo Mayorga (um autómato que informa as horas à população) e com o anúncio da festa Martes Mayor.

Queijo de cabra extremenho ‘El Cabrón’! LOL

E para não variar, considerando a grande oferta ao nível da restauração local, o jantar foi uma vez mais de escolha livre para todos os participantes. Um grupo alargado acabou por se juntar numa esplanada da Plaza Mayor, mais precisamente no Bar Café Torero, para aquele que seria o último jantar-convívio do tour, com as peripécias da viagem a servirem de mote para agradáveis momentos de boa disposição entre todos.

Animação no jantar-convívio na Plaza Mayor (Plasencia).

No final, regressámos ao hotel com um sentimento de alguma nostalgia. O Best Pirinéus Tour 2025 tinha praticamente chegado ao fim. O dia seguinte estava reservado para o regresso a casa de toda a caravana.

Continua...

sábado, 4 de abril de 2026

Páscoa Feliz


Uma Páscoa com gasolina no depósito para muitos e bons quilómetros de mota, são os votos da ‘Fita de Asfalto’ para todos os motociclistas.