terça-feira, 24 de março de 2026

Best Pirinéus Tour 2025 #6/8

Dia 6 (31/07/2025): Jaca – Cabo Higuer – Vitoria

Este dia marcava a chegada ao Mar Cantábrico (Golfo da Biscaia), final simbólico da nossa travessia dos Pirenéus (Transpirenaica). Contudo, o 6.º dia do tour tinha reservado mais uma jornada repleta de aventuras e de grande beleza e interesse, com a passagem no pass de Roncesvalles, em Saint-Jean-Pied-de-Port, e muito mais.

Dia 6 – 370 km.

A caravana do Best Pirinéus Tour 2025 foi para a estrada à hora habitual, pelas 08h30, depois de cumpridas as já rotineiras tarefas matinais com a tomada do pequeno-almoço, a arrumação da bagagem e a lubrificação das correntes das motas (para os não BMW GS...).

Com a Serra de Leyre em pano de fundo, a rota do tour levou-nos pelo vale do Rio Aragón a caminho da comunidade autónoma de Navarra. Esta cordilheira forma um corredor entre Navarra e Aragão, uma passagem histórica utilizada por aqueles que viajavam de um reino para o outro. O Caminho de Santiago passa por ali onde, seguindo a variante de Toulouse, os peregrinos atravessavam os Pirenéus via Jaca.

Nesta região dos Pirenéus Navarros a caminho de França destaca-se o Bosque de Irati, uma das maiores e mais belas extensões de floresta nativa da Europa. A área oferece emocionantes rotas de montanha e paisagens naturais deslumbrantes para desfrutar de mota. Para além da sua beleza natural, o Bosque de Irati é um local repleto de vida selvagem, com uma riqueza de animais e plantas autóctones. Pode-se parar nos miradouros e apreciar a vista da região e da sua vida selvagem.

Entretanto, o céu ia ficando cada vez mais fechado. Uma chuva miudinha mas persistente levou a uma paragem para vestir os fatos impermeáveis, junto à La Posada de Roncesvalles, onde aproveitámos para tomar um café e aquecer um pouco. E se dúvidas houvesse, aqui está a prova provada de que o fato de chuva deve sempre fazer parte da bagagem de qualquer viagem de mota, independentemente da altura do ano em que se realize.

A vila de Roncesvalles é conhecida por ser um importante ponto de passagem na rota de peregrinação do Caminho de Santiago. Foi o cenário da Batalha de Roncesvalles em 778 d.C., onde a retaguarda do exército de Carlos Magno, liderada pelo cavaleiro Roldán, foi derrotada. Este evento inspirou a famosa epopeia medieval o “Cantar de Roldán”. É também um destino popular para os motociclistas que procuram emocionantes rotas de montanha.

Enquanto aguardava pelo retomar da marcha, reparei num grupo de três motas clássicas estacionadas nas imediações da pousada. Com natural curiosidade, percebi que estava na presença de uma Velocette de 1938, de uma Cemec L7 750 cc de 1951 e de uma Terrot (provavelmente uma RGST 500 cc da década de 1950), todas bem conservadas e carregadas de bagagem. Verdadeiras viajantes de outros tempos.

Velocette de 1938.

Cemec L7 750 cc de 1951.

Terrot (provavelmente uma RGST 500 cc da década de 1950).

Lembrei-me de imediato da BSA 500 cc de 1936 que tinha visto na véspera, a caminho do Col d’Aubisque. Seria coincidência? Estariam de algum modo relacionadas? A resposta veio através de uma placa colocada na lateral de uma das motas, com a indicação 7e Tour Basco-Béarnais de Motos Anciennes. Estava desvendado o mistério. Tratava-se de um evento turístico de 4 dias pelos Pirenéus Atlânticos (País Basco - Béarn), incluindo algumas passagens de montanha lendárias do Tour de France, reservado a motas de época até 1965 e organizado pelo clube de motas antigas Les Pétochons Pyrénéens, de Bugnein (França). Valentes!

De novo na estrada e um pouco mais à frente surgia o Porto de Ibañeta (Passo de Roncesvalles), o local de maior altitude (1.057 m) que foi transporto neste 6.º dia do tour. Aqui encontra-se a Capela de San Salvador (construída em 1965 sobre ruínas de 1127, que historicamente servia para guiar peregrinos com o toque de um sino em dias de nevoeiro) e um memorial em pedra dedicado a Roldán.

A fronteira com França já não estava longe, o que acontece com a travessia do curso do Nive d'Arnéguy. O caminho até lá foi percorrido num intenso ziguezaguear que fez as delícias de todos os condutores e respectivas motas.

Inserida na confluência dos rios Nive e Laurhibar, Saint-Jean-Pied-de-Port deve o seu nome à sua localização ao pé do passo de Roncesvalles. Antiga capital política e administrativa da Baixa Navarra, é hoje um centro económico, cultural e desportivo do País Basco francês. É também uma paragem na peregrinação a Santiago de Compostela, com cerca de 60.000 peregrinos por ano. Esta localidade medieval cativa todos os que lá chegam com as suas ruas calcetadas, a ponte sobre o rio Nive e a sua imponente cidadela.

Saint-Jean-Pied-de-Port é um local repleto de história e charme, com um centro histórico que alberga vários edifícios e monumentos históricos. A Igreja da Assunção da Virgem (Eglise de l'Assomption de la Vierge) é um dos marcos mais emblemáticos da cidade, oferecendo vistas deslumbrantes para as montanhas e para o vale circundante. Em 2016, foi admitida na associação das Aldeias Mais Belas da França.

Daqui até ao Vale de Baztán é um pulinho. Esta bela zona rural na província de Navarra é conhecida pelas suas montanhas verdejantes, vales férteis e riachos cristalinos. Um local popular para os amantes da natureza e entusiastas de desportos ao ar livre. Para além da sua beleza natural, o Vale de Baztán é também conhecido pela sua rica história e património cultural. A área alberga muitos monumentos e edifícios históricos, como a Igreja de San Esteban, o Castelo de Olite e o Mosteiro de Iratxo.

As casas no País Basco francês, conhecidas como Etxea (casa, no idioma basco), destacam-se pelo seu estilo simétrico, fachadas brancas, madeirame colorido (maioritariamente vermelho) e telhados de duas águas. Muito mais do que uma casa, representa a continuidade da família e o património. Estas habitações tradicionais são um ícone da arquitetura local.

As fachadas brancas e o madeirame vermelho nas casas do País Basco francês.

O Golfo da Biscaia e o Mar Cantábrico estavam cada vez mais perto. Mas até lá chegar impunha-se uma importante paragem para repor os níveis de energia dos condutores. O sempre bem-vindo almoço acabou por ter lugar no Kinka Restaurant Et Bar, perto da localidade de Saint-Pée-sur-Nivelle, onde tive a oportunidade de experimentar pela primeira vez uma Euskola, a cola do País Basco. E não fiquei desiludido, diga-se.

Euskola, a cola do País Basco.

Pouco mais de duas dezenas de quilómetros depois e já com Hondarribia à vista, a entrada em Espanha acontece com travessia do rio Bidasoa, junto à sua foz, que representa também a entrada na província de Gipuzkoa.

Hondarribia é uma charmosa cidade costeira de Gipuzkoa, no País Basco espanhol. Destaca-se pelo seu centro histórico amuralhado, repleto de edifícios senhoriais e que foi declarado Monumento Histórico-Artístico, pelo colorido bairro de pescadores da Marina, excelente gastronomia (especialmente pintxos e marisco) e uma praia tranquila.

No recinto amuralhado, na parte mais alta da cidade está situada a praça de Armas, num dos lados fica o Castelo do Imperador Carlos V, onde hoje funciona o Parador de Turismo, estendendo-se junto ao mar o bairro de La Marina. Este núcleo marítimo, possivelmente o mais antigo da vila, oferece a atmosfera mais popular de Hondarribia. Nas suas ruas, especialmente na de San Pedro, há uma sequência de típicas casas de marinheiros pintadas com cores vibrantes, onde se encontrará o lugar ideal para um passeio ou um aperitivo.

Hondarribia, charmosa cidade costeira de Gipuzkoa (País Basco).

A 4 quilómetros de distância para Norte fica o ponto mais oriental do Mar Cantábrico, o Cabo Higuer, que marca o confim noroeste dos Pirenéus. A chegada ao farol (Faro de Higuer) marcou também o final simbólico da nossa travessia dos Pirenéus (Transpirenaica). Um magnífico passeio de quatro dias com muitas curvas, diversas subidas, descidas e travessias de alta montanha, por locais fantásticos e paisagens arrebatadoras, tudo em boa companhia. Assim vale apena!

A chegada ao Cabo Higuer (País Basco, Espanha).

Farol do Cabo Higuer, final simbólico da nossa Transpirenaica (País Basco, Espanha).

Apesar de termos concluído com sucesso a travessia dos Pirenéus, o 6.º dia do tour ainda não tinha terminado. A tarde ia só a meio e como a organização tinha estabelecido que a caravana ficaria alojada a cerca de 120 km de distância, arrancámos depois do Cabo Higuer em direcção à cidade de Vitoria, na província de Álava.

Na descida para Hondarribia fomos brindados com uma fantástica vista sobre a costa basco-francesa, onde se destacam as praias de areia dourada de Hondarribia e de Hendaye, na Baía de Chingudi. Esta é uma baía formada pelo estuário do rio Bidasoa, entre as cidades de Hondarribia e Irún (Espanha) na margem esquerda e Hendaye (França) na margem direita.

Vista para as praias de Hondarribia (Espanha) e de Hendaye (França), na Baía de Chingudi.

Deixámos assim para trás a montanha e as estradas reviradas para voltarmos a abraçar a estrada aberta e as vias rápidas. Um trajecto que inicialmente seguiu pela costa junto ao Mar Cantábrico, acabou depois necessariamente por mudar de rumo em direcção ao interior do território espanhol.

Foi já com a caravana um pouco dispersa que chegámos a Vitoria (oficialmente Vitoria-Gasteiz), um município da Espanha, na província de Álava (País Basco). O destino final foi o Sercotel Boulevard Vitoria, local de alojamento para todos os participantes. O estacionamento das motas foi desta vez efetuado sem constrangimentos, onde até foi possível escolher entre o parque exterior junto ao hotel ou o seu parque subterrâneo.

Devidamente instalados e com o hotel a cerca de 2 km (20 min. a pé) do centro histórico da cidade, foi para lá que nos dirigimos para visitar o seu característico Casco Viejo. Fundada no final do Séc. XII, Vitoria é hoje uma cidade com um projeto urbanístico exemplar. Conserva um centro medieval onde é possível encontrar diversos lugares de sabor tradicional, como a Praça da Virgem Branca, e edifícios históricos, como a Catedral de Santa María.

Muralha Medieval (Vitoria, País Basco).

Torre octogonal da Catedral de Santa María (Vitoria, País Basco).

A capital basca revela um centro histórico onde é possível encontrar lugares encantadores, jardins e passeios arborizados que fazem da capital alavesa um pulmão verde sem abrir mão de um urbanismo bem cuidado, onde ruas medievais se misturam harmoniosamente com palácios renascentistas e igrejas neoclássicas. O centro nevrálgico da cidade é a Praça da Virgem Branca, onde se destaca o monumento à batalha de Vitoria. Nela se situa a Igreja de San Miguel, que guarda a imagem da Virgem Branca, padroeira da cidade. Na parte mais alta da cidade situa-se a Catedral de Santa María ou Catedral Velha, um magnífico templo gótico cuja construção foi iniciada no Séc. XIII e se prolongou durante o século seguinte.

Edifício do Centro Cultural (Vitoria, País Basco).

Junto ao Palácio Villa-Suso, com a Catedral de María Imaculada ou Catedral Nova em fundo (Vitoria, País Basco).

Uma vez mais com toda a liberdade para escolher um local a gosto para jantar, acabámos por nos sentar à mesa no restaurante Le Basque, situado na ladeira da Almendra Medieval (o apelido do centro histórico de Vitoria, conhecido pela sua forma elíptica que lembra uma amêndoa e por ser um dos núcleos medievais mais bem preservados do país), em plena Plaza del Machete e ao lado do Palácio Villa-Suso, para degustar as iguarias locais.

Depois de interessantes histórias e peripécias partilhadas de forma animada durante a refeição, seguiu-se um pequeno passeio by night pelas ruas medievais do casco antiguo, prosseguindo depois para o hotel para repousar o esqueleto. Até porque no dia seguinte regressaríamos às longas tiradas, com mais de cinco de centenas de quilómetros em perspectiva.

Continua...

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Arthur Lampkin RIP

Com um glorioso palmarés no FIM Motocross Grand Prix and Trophee des Nations, Six Days of Enduro e Scottish Six Days Trial, o piloto britânico Arthur Lampkin deixou-nos no passado dia 21 de fevereiro, quando ia completar a bonita idade de 88 anos.

Arthur Lampkin (1938-2026). Via

Filho mais velho de uma dinastia motociclista de Yorkshire, Arthur Lampkin competiu em diversos eventos de motociclismo off-road, como trial, motocross e enduro. Na década de 1960, Lampkin tornou-se membro da equipa de fábrica BSA junto com seu irmão Alan. Juntamente com Dave Bickers e Jeff Smith, fez parte de um grupo de motociclistas britânicos que dominou o motocross nessa época.

Arthur Lampkin venceu o campeonato nacional britânico de motocross 500cc em 1959 e o campeonato nacional britânico de motocross 250cc em 1961, o mesmo ano em que foi vice-campeão mundial de 250cc. Foi membro de duas equipas britânicas vencedoras do Trophée des Nations (1961, 1962) e cinco vitórias consecutivas como membro da equipa britânica de Motocross des Nations (1963-1967).

A tenacidade que demonstrava nas diversas competições de off-road, levou-o a vencer eventos prestigiados como o Scottish Six Days Trial de 1963 e o Scott Trial em 1960, 1961 e 1965. Lampkin também competiu internacionalmente em eventos de enduro, representando a Grã-Bretanha e conquistando a medalha de ouro no International Six Days Trial de 1966, realizado na Suécia.

Arthur Lampkin no Motocross Des Nations (1967). Via

Os irmãos mais novos de Arthur Lampkin, Alan e Martin Lampkin, também tiveram sucesso em competições de motociclismo off-road. Alan venceu o campeonato britânico de trial, enquanto Martin tornou-se campeão britânico de trial, além de vencer a primeira edição do Campeonato Mundial de Trial da FIM, em 1975. Para os mais distraídos, de referir que Martin Lampkin é o pai de Dougie Lampkin, um dos maiores pilotos de trial de todos os tempos, com 12 títulos de Campeão Mundial (durante a década de 90 e no início deste século), e que chegou a competir diversas vezes em Portugal.

Arthur Lampkin faleceu aos 87 anos, após uma luta contra o cancro.

R.I.P.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Best Pirinéus Tour 2025 #5/8

Dia 5 (30/07/2025): Biescas – Jaca

Mais um dia repleto de emoção no Best Pirinéus Tour 2025, com a passagem em diversos col´s de alta montanha, sempre bem enquadrados por grandiosas paisagens.

Pese embora o ponto de partida e o ponto de chegada do 5.º dia do tour distarem apenas 30 km por estrada um do outro, a rota programada era substancialmente mais alargada. Levar-nos-ia por terras espanholas e francesas, com subida aos lagos de Panticosa, passagem no Col du Pourtalet, Col du Soulour, Col du Somport, Col de Marie Blanque, entre outros, visita à recuperada Estação Ferroviária de Canfranc, e chegada a Jaca (cidade património da Unesco) pela tarde.

Dia 5 – 245 km.

Despachadas as tarefas matinais da tomada do pequeno-almoço no hotel, da arrumação da bagagem e da lubrificação da corrente da mota, a caravana deixou então a vila de Biescas por volta das 08h30 rumo aos lagos de Panticosa.

Numa curta tirada de 25 km, por uma estrada que também foi uma antiga rota para a França através do Port du Marcadau (usada em tempos anteriores por pastores e contrabandistas), chegávamos ao Ibón de los Baños. Um lago natural localizado no Vale do Tena, a uma altitude de 1.630 m, que coleta as águas das torrentes que descem dos picos circundantes para dar origem ao Rio Caldarés.

O lago encontra-se nas imediações de um conjunto de fontes termais conhecidas desde a época romana, com temperaturas que atingem os 49 °C. As suas propriedades benéficas para a saúde deram origem a um conceituado spa com edifícios modernistas (Baños de Panticosa), declarado Património Cultural, e que oferece diversos serviços de saúde e beleza.

O grupo junto ao Ibón de los Baños, Panticosa (Huesca, Aragão).

Após a breve paragem junto ao tranquilo Ibón de los Baños, a caravana do Best Pirinéus Tour 2025 seguiu montanha acima, em direcção ao território francês. Com o passar dos quilómetros e à medida que a altitude aumentava, por oposição a temperatura ambiente ia gradualmente diminuindo. Nada que uma camada extra de roupa não tenha resolvido a questão.

Na passagem pelo Col du Pourtalet, um passo de montanha a 1.794 m de altitude na fronteira entre Espanha e França, efectuámos uma pequena pausa para tomar um café e aquecer um pouco. Por aqui encontrámos também alguns mamíferos ruminantes (gado bovino) que, vindos dos pastos circundantes, não se fizeram rogados em invadir o estacionamento e a estrada. Uma situação comum nestas paragens e para a qual é necessário ter atenção redobrada.

Pausa para um café no Col du Pourtalet (fronteira entre Espanha e França).

Das paisagens mais agrestes às mais verdejantes, os Pirenéus Atlânticos (Pyrénées Atlantiques) deslumbram todos os que por aqui passam. Num autêntico bailado de curvas e contra-curvas, com ganchos apertados, subidas íngremes e descidas acentuadas, as reviradas estradas em redor destas montanhas são extremamente viciantes e difíceis de resistir para todos aqueles que adoram viajar, especialmente em duas rodas.

Das paisagens montanhosas mais agrestes...

... às paisagens mais verdejantes, nos Pirenéus Atlânticos.

A caminho do Col d’Aubisque, mais um passo de montanha acima dos 1.700 m de altitude, (1.709 m), as esculturas de bicicletas que se podem ver em alguns locais junto à estrada não deixam dúvidas. Este local é também um paraíso para os entusiastas das bicicletas de estrada, sendo regularmente integrado no Tour de France, geralmente classificado como uma escalada de categoria especial (hors catégorie).

Por aqui os cenários são de cortar a respiração. E mesmo a calhar, junto ao hotel e restaurante Les Crêtes Blanches, tivemos a oportunidade de parar as motas para apreciar a grandiosa e deslumbrante vista dos penhascos em redor. Majestoso, sem dúvida!

Pequena paragem para apreciar as deslumbrantes vistas, perto do Col d’Aubisque.

E qual não é o meu espanto quando, de repente, surge na estrada uma mota bem diferente das modernas turísticas de aventura, supostamente mais adaptadas a este tipo de terreno. Tratava-se de uma idosa e respeitada BSA 500 cc de 1936 (provavelmente uma Model Q7), muito bem conservada, com condutor, passageiro e até alguma bagagem. Se dúvidas houvesse, ficou comprovado que não são só as motas trail e afins que andam pelos Pirenéus. É caso para dizer: velhos são os trapos!

Magnífica BSA 500 cc de 1936.

Fazendo fronteira com os Pirenéus Atlânticos, a região dos Altos Pirenéus (hautes-pyrénées) configura várias áreas geográficas distintas. A zona sul, ao longo da fronteira com a Espanha, é composta por montanhas como o Vignemale, o Pic du Midi de Bigorre e as cadeias Neouvielle e Arbizon. Uma segunda área consiste em colinas onduladas de baixa altitude. A parte norte é composta em grande parte por terras agrícolas planas.

Mas são os passos de montanha que, com as suas características particulares, acabam por ser as atracções da região e definir muitos dos seus pontos turísticos, como é o caso do Col Du Soulor (1.474 m). Este local foi também palco de inúmeras ascensões no Tour de France, mas apenas quinze (entre 1973 e 2025) contaram para a classificação do prémio da montanha (nas restantes, os pontos da montanha foram atribuídos apenas no Col d'Aubisque).

Chegada ao Col du Soulor (Altos Pirenéus).

Col du Soulor – 1.474 m (Altos Pirenéus).

Após uma pausa para tomar uma água, apreciar as vistas e juntar o grupo que já vinha um pouco disperso, retomámos a estrada e a rota do Best Pirinéus Tour 2025, não em direcção à cidade de Lourdes e ao seu conhecido santuário mariano, mas de volta aos Pirenéus Atlânticos rumo a Asson.

Uma curiosidade na passagem pela povoação de Ferrières (Occitânia), onde se pode observar que a placa que identifica a localidade está “de pernas para o ar”. A colocação de placas de identificação de localidades ao contrário é um ato deliberado, geralmente motivado por protestos políticos ou sociais. Na região espanhola da Catalunha, ativistas têm desaparafusado e virado as placas que indicam o nome dos locais como forma de chamar a atenção para determinadas causas ou reivindicações, como a independência da região.

A povoação de Ferrières (Occitânia) com a placa colocada “de pernas para o ar”.

Asson emerge na província de Béarn, entre colinas e picos altos. Está localizada no vale Gave de Pau, não muito longe de Coarraze, Bourdettes e Arthez-d'Asson. Antiga, a vila desenvolveu-se durante muito tempo em torno da sua abadia secular, vassala do Visconde de Béarn, da qual se libertou na segunda metade do Séc. XIII. Hoje, esta cidade no sudoeste da França é conhecida pelas suas paisagens intocadas, mas também por fazer parte da área de denominação de Ossau-iraty, pelos “Haricots Tarbais IGP” (feijões brancos com pele fina, textura delicada e carne derretida), pelo queijo “tomme noire des Pyrénées”, pato com foie gras do sudoeste e presunto de Bayonne que atraem bons gourmets.

Tudo bons motivos para uma boa degustação. Mas seria cerca de 5 km depois, na pequena localidade de Bruges (comuna de Bruges-Capbis-Mifaget), que nos sentaríamos à mesa do Café Restaurant du Commerce para o aguardado almoço. Um restaurante familiar, com cozinha de boa qualidade e pratos simples, mas caseiros.

O acesso ao passo de montanha seguinte parecia agora mais difícil devido ao “peso extra” do almoço, pese embora os pouco mais de 1.000 m de altitude que teríamos de vencer para lá chegar. Tratou-se do Col de Marie Blanque (1.035 m), localizado na estrada de ligação entre os dois vales vizinhos, o vale do Aspe e o vale do Ossau. Foi igualmente utilizado com regularidade pelo Tour de France, habitualmente classificado como uma escalada de primeira categoria (1re catégorie).

A caminho do Col de Marie Blanque (Pirenéus Atlânticos).

Antes da travessia do último passo do dia, o Col du Somport (porto montanhoso localizado na fronteira entre França e Espanha, a uma altitude de 1.640 m), uma curiosa construção na rocha fez-me desviar o olhar da estrada por breves momentos. Tratava-se do Fort du Portalet (na comuna de Etsaut), erigido num penhasco com cerca de 800 m de altura, com vista para o rio Gave d'Aspe. Responsável por proteger a estrada para o Col du Somport, destacam-se as galerias escavadas na rocha, ameadas ou com brechas.

Fort du Portalet (comuna de Etsaut).

De regresso ao território espanhol, chegávamos a um dos locais mais emblemáticos dos Pirenéus para uma visita à antiga Estação Ferroviária Internacional de Canfranc, uma imponente estação fronteiriça entre Espanha e França, inaugurada em 1928, construída para as transferências entre comboios espanhóis e franceses (que utilizavam bitolas ferroviárias diferentes).

Chegada à Estação Ferroviária Internacional de Canfranc.

O edifício principal tem uns impressionantes 241 m de comprimento, com 300 janelas e 156 portas (era a segunda maior da Europa, atrás da estação de Leipzig, Alemanha). Interligou as cidades de Saragoça (Espanha) e Pau (França) até 1970, onde um acidente com um comboio levou ao colapso da ponte de L’Estanguet (lado francês) e ao fim da circulação ferroviária nesta linha. Abandonada desde então, a estação voltou a abrir as suas portas em 2023 como hotel de luxo.

Estação Ferroviária Internacional de Canfranc.

Estação Ferroviária Internacional de Canfranc (Hotel).

Durante a II Guerra Mundial, Canfranc testemunhou detenções, espionagem e tráfico de ouro, adquirindo a reputação de “Casablanca nos Pirenéus”. No ano 2000, foram aqui acidentalmente descobertos mais de mil documentos que mostram que cerca de 75 toneladas de ouro nazi passaram pela fronteira a caminho de Portugal, contrariando a neutralidade oficial do país.

Ficou assim demonstrado o envolvimento português no maior conflito bélico acorrido até hoje, nomeadamente através do comércio ilegal de volfrâmio com os alemães. A elevada resistência deste minério a altas temperaturas e a sua capacidade de tornar as ligas metálicas ainda mais fortes e duradouras, tornavam-no uma matéria-prima crucial para a indústria do armamento (mais detalhes sobre esta história no Episódio 5 da série documental Portugal Secreto).

Canfranc encerra em si mesmo uma certa aura de mistério, e até de secretismo, digna do enredo de um filme de Hollywood. E como que para continuar a alimentar esta mística, o Túnel de Somport da ferrovia abandonada, bem no coração da montanha, é agora utilizado pelo Laboratório Subterrâneo de Canfranc, um laboratório científico que, protegido da radiação cósmica, se dedica sobretudo ao estudo de fenómenos naturais de ocorrência rara, como as interações dos neutrinos de origem cósmica ou da matéria escura com os núcleos atómicos. Parte do túnel é também utilizado como faixa de emergência para o actual Túnel Rodoviário de Somport.

Estação Ferroviária Internacional de Canfranc.

Histórias à parte e de regresso ao tour, cerca de duas dezenas de quilómetros depois chegávamos então a Jaca (província de Huesca, Aragão), concluindo assim o percurso do 5.º dia do Best Pirinéus Tour 2025. A comitiva ficou alojada no Hotel Oroel, localizado no coração da cidade, a poucos passos do centro histórico. Com as motas guardadas no parque de estacionamento coberto do hotel, o final da tarde foi aproveitado para conhecer um pouco melhor “a pérola dos Pirenéus”, como também é conhecida.

Jaca é uma cidade europeia e cosmopolita, paragem fundamental do Caminho de Santiago. É imprescindível visitar a Cidadela, exemplar da arquitetura militar do Séc. XVI e declarada Monumento Histórico-Artístico. A sua construção começou em 1592, tem uma planta pentagonal de grandiosas dimensões, um fosso, e está construída em terreno plano. Existem outros edifícios muito importantes, como a Catedral românica (Séc. XI), declarada Monumento Nacional, o Mosteiro dos Beneditinos, a Igreja de Santiago, a Ermida de Sarsa, a Ponte medieval de San Miguel, a Torre do Relógio (Séc. XV) e a Prefeitura.

Entre as suas festas destaca-se a da primeira sexta-feira de maio, que comemora uma batalha medieval. São feitos torneios, duelos a cavalo, um bonito espetáculo de “volteo de banderas” e provas de antigos desportos aragoneses como o arremesso de barra.

Catedral de São Pedro de Jaca.

Catedral de São Pedro de Jaca.

Acabámos por ser surpreendidos pelas largas centenas de pessoas que se aglomeravam ao longo da principal artéria da cidade, sempre muito animadas como é apanágio do povo espanhol. Percebemos depois que decorria o desfile dos grupos participantes na 53.ª edição do Festival Folklórico de los Pirineos, o evento mais antigo da Espanha e um dos mais reconhecidos do mundo. Declarado Festival de Interesse Turístico Nacional, é celebrado nos anos ímpares e, até 2009, alternava a sua organização com o município francês de Oloron-Sainte-Marie.

O evento reúne grupos folclóricos de diversos países e continentes. Música de rua e danças são combinadas com shows de palco, exposições e mostras gastronómicas. Neste final de tarde desfilaram grupos de Jaca, Ronda, Zamora, Marselha, Equador, Geórgia, Colômbia, Montenegro, México, Índia, Cuba, Turquia, Lesoto e Malásia.

Desfile do 53.º Festival Folklórico de los Pirineos (Jaca).

Devido à grande quantidade de restaurantes existentes em Jaca, a organização decidiu novamente não juntar o jantar ao alojamento no hotel. Assim, cada um ficou livre para escolher o que mais lhe apetecia comer. Mas com a grande quantidade de gente na cidade devido ao festival folclórico, encontrar um restaurante com mesa disponível não foi tarefa fácil. Após alguma procura, acabou por ser no Bar Jolio Jaca, perto da Igreja de Nossa Senhora de El Cármen, que nos conseguimos sentar para jantar.

Igreja de Nossa Senhora de El Cármen (Jaca).

Com um pequeno passeio nocturno pelas ruas de Jaca antes de regressar ao hotel, demos por terminado mais um dia em cheio por terras pirenaicas. No dia seguinte, o Best Pirinéus Tour 2025 iria certamente proporcionar novas e entusiasmantes aventuras para todos os participantes.

Continua...

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Boas Festas 2025

A ‘Fita de Asfalto’ deseja a todos os motociclistas e entusiastas das motos um Feliz Natal e umas boas entradas no ano de 2026.


Regressando ao infindável tema das IPO (Inspeções Periódicas Obrigatórias), é sabido que os motociclistas cuidam das suas motos, porque sabem que as suas vidas dependem disso. E os vários estudos e diferentes estatísticas comprovam que as IPO não são sinónimo de maior segurança rodoviária ou redução da sinistralidade. Ainda assim, esta polémica continua a dar que falar, e o que parecia definitivo, afinal poderá não ser. Ou será que é?

Resumindo, a Comissão Europeia decidiu procurar sobrepor-se à vontade dos Estados-Membro e recolocou na agenda as Inspeções às motos, passando desta vez a querer forçar os países que ainda não têm inspeções, a aplicarem uma nova legislação europeia que as tornará absolutamente obrigatórias. Mas no que parece ser uma reviravolta, o Conselho da UE decidiu que não haverá IPO para motociclos. Esperemos que seja desta.

Votos de Boas Festas e Boas Curvas... em segurança!