Uma Páscoa com gasolina no depósito para muitos e bons quilómetros de
mota, são os votos da ‘Fita de Asfalto’ para todos os motociclistas.
sábado, 4 de abril de 2026
terça-feira, 24 de março de 2026
Best Pirinéus Tour 2025 #6/8
Dia 6 (31/07/2025): Jaca – Cabo Higuer – Vitoria
Este dia marcava a chegada ao Mar Cantábrico (Golfo da Biscaia), final simbólico
da nossa travessia dos Pirenéus (Transpirenaica). Contudo, o 6.º dia do tour
tinha reservado mais uma jornada repleta de aventuras e de grande beleza e
interesse, com a passagem no pass de Roncesvalles, em Saint-Jean-Pied-de-Port,
e muito mais.
A caravana do Best Pirinéus Tour 2025 foi para a estrada à hora
habitual, pelas 08h30, depois de cumpridas as já rotineiras tarefas matinais com
a tomada do pequeno-almoço, a arrumação da bagagem e a lubrificação das
correntes das motas (para os não BMW GS...).
Com a Serra de Leyre
em pano de fundo, a rota do tour levou-nos pelo vale do Rio Aragón a
caminho da comunidade autónoma de Navarra. Esta cordilheira forma um corredor
entre Navarra e Aragão, uma passagem histórica utilizada por aqueles que
viajavam de um reino para o outro. O Caminho de Santiago
passa por ali onde, seguindo a variante de Toulouse, os peregrinos atravessavam
os Pirenéus via Jaca.
Nesta região dos Pirenéus Navarros a caminho de França destaca-se o Bosque de Irati, uma das
maiores e mais belas extensões de floresta nativa da Europa. A área oferece
emocionantes rotas de montanha e paisagens naturais deslumbrantes para
desfrutar de mota. Para além da sua beleza natural, o Bosque de Irati é um
local repleto de vida selvagem, com uma riqueza de animais e plantas
autóctones. Pode-se parar nos miradouros e apreciar a vista da região e da sua
vida selvagem.
Entretanto, o céu ia ficando cada vez mais fechado. Uma chuva miudinha
mas persistente levou a uma paragem para vestir os fatos impermeáveis, junto à La
Posada de Roncesvalles, onde aproveitámos para tomar um café e aquecer um
pouco. E se dúvidas houvesse, aqui está a prova provada de que o fato de chuva
deve sempre fazer parte da bagagem de qualquer viagem de mota,
independentemente da altura do ano em que se realize.
A vila de Roncesvalles
é conhecida por ser um importante ponto de passagem na rota de peregrinação do
Caminho de Santiago. Foi o cenário da Batalha de Roncesvalles em 778 d.C., onde
a retaguarda do exército de Carlos Magno, liderada pelo cavaleiro Roldán, foi
derrotada. Este evento inspirou a famosa epopeia medieval o “Cantar de Roldán”.
É também um destino popular para os motociclistas que procuram emocionantes
rotas de montanha.
Enquanto aguardava pelo retomar da marcha, reparei num grupo de três motas
clássicas estacionadas nas imediações da pousada. Com natural curiosidade, percebi
que estava na presença de uma Velocette de 1938, de uma Cemec L7 750 cc de
1951 e de uma Terrot (provavelmente uma RGST 500 cc da década de 1950), todas bem
conservadas e carregadas de bagagem. Verdadeiras viajantes de outros tempos.
Lembrei-me de imediato da BSA 500 cc de 1936 que tinha visto na véspera,
a caminho do Col d’Aubisque. Seria coincidência? Estariam de algum modo relacionadas?
A resposta veio através de uma placa colocada na lateral de uma das motas, com
a indicação 7e
Tour Basco-Béarnais de Motos Anciennes. Estava desvendado o mistério. Tratava-se
de um evento turístico de 4 dias pelos Pirenéus Atlânticos (País Basco - Béarn),
incluindo algumas passagens de montanha lendárias do Tour de France, reservado
a motas de época até 1965 e organizado pelo clube de motas antigas Les
Pétochons Pyrénéens, de Bugnein (França). Valentes!
De novo na estrada e um pouco mais à frente surgia o Porto
de Ibañeta (Passo de Roncesvalles), o local de maior altitude (1.057 m) que
foi transporto neste 6.º dia do tour. Aqui encontra-se a Capela de San
Salvador (construída em 1965 sobre ruínas de 1127, que historicamente servia
para guiar peregrinos com o toque de um sino em dias de nevoeiro) e um memorial
em pedra dedicado a Roldán.
A fronteira com França já não estava longe, o que acontece com a
travessia do curso do Nive d'Arnéguy. O caminho até lá foi percorrido num
intenso ziguezaguear que fez as delícias de todos os condutores e respectivas motas.
Inserida na confluência dos rios Nive e Laurhibar, Saint-Jean-Pied-de-Port
deve o seu nome à sua localização ao pé do passo de Roncesvalles. Antiga
capital política e administrativa da Baixa Navarra, é hoje um centro económico,
cultural e desportivo do País Basco francês. É também uma paragem na
peregrinação a Santiago de Compostela, com cerca de 60.000 peregrinos por ano. Esta
localidade medieval cativa todos os que lá chegam com as suas ruas calcetadas,
a ponte sobre o rio Nive e a sua imponente cidadela.
Saint-Jean-Pied-de-Port é um local repleto de história e charme, com um
centro histórico que alberga vários edifícios e monumentos históricos. A Igreja da Assunção
da Virgem (Eglise de l'Assomption de la Vierge) é um dos marcos mais
emblemáticos da cidade, oferecendo vistas deslumbrantes para as montanhas e
para o vale circundante. Em 2016, foi admitida na associação das Aldeias
Mais Belas da França.
Daqui até ao Vale
de Baztán é um pulinho. Esta bela zona rural na província de Navarra é conhecida
pelas suas montanhas verdejantes, vales férteis e riachos cristalinos. Um local
popular para os amantes da natureza e entusiastas de desportos ao ar livre. Para
além da sua beleza natural, o Vale de Baztán é também conhecido pela sua rica
história e património cultural. A área alberga muitos monumentos e edifícios
históricos, como a Igreja de San Esteban, o Castelo de Olite e o Mosteiro de
Iratxo.
As casas no País Basco francês, conhecidas como Etxea (casa, no idioma
basco), destacam-se pelo seu estilo simétrico, fachadas brancas, madeirame
colorido (maioritariamente vermelho) e telhados de duas águas. Muito mais do
que uma casa, representa a continuidade da família e o património. Estas
habitações tradicionais são um ícone da arquitetura local.
O Golfo da Biscaia e o Mar Cantábrico estavam cada vez mais perto. Mas
até lá chegar impunha-se uma importante paragem para repor os níveis de energia
dos condutores. O sempre bem-vindo almoço acabou por ter lugar no Kinka
Restaurant Et Bar, perto da localidade de Saint-Pée-sur-Nivelle, onde tive
a oportunidade de experimentar pela primeira vez uma Euskola, a cola do País Basco. E não fiquei
desiludido, diga-se.
Pouco mais de duas dezenas de quilómetros depois e já com Hondarribia à
vista, a entrada em Espanha acontece com travessia do rio Bidasoa, junto à sua
foz, que representa também a entrada na província de Gipuzkoa.
Hondarribia
é uma charmosa cidade costeira de Gipuzkoa, no País Basco espanhol. Destaca-se
pelo seu centro histórico amuralhado, repleto de edifícios senhoriais e que foi
declarado Monumento Histórico-Artístico, pelo colorido bairro de pescadores da
Marina, excelente gastronomia (especialmente pintxos e marisco) e uma praia
tranquila.
No recinto amuralhado, na parte mais alta da cidade está situada a praça
de Armas, num dos lados fica o Castelo do Imperador Carlos V, onde hoje
funciona o Parador de Turismo, estendendo-se junto ao mar o bairro de La
Marina. Este núcleo marítimo, possivelmente o mais antigo da vila, oferece a
atmosfera mais popular de Hondarribia. Nas suas ruas, especialmente na de San
Pedro, há uma sequência de típicas casas de marinheiros pintadas com cores
vibrantes, onde se encontrará o lugar ideal para um passeio ou um aperitivo.
A 4 quilómetros de distância para Norte fica o ponto mais oriental do Mar
Cantábrico, o Cabo Higuer,
que marca o confim noroeste dos Pirenéus. A chegada ao farol (Faro
de Higuer) marcou também o final simbólico da nossa travessia dos Pirenéus
(Transpirenaica). Um magnífico passeio de quatro dias com muitas curvas, diversas
subidas, descidas e travessias de alta montanha, por locais fantásticos e paisagens
arrebatadoras, tudo em boa companhia. Assim vale apena!
Apesar de termos concluído com sucesso a travessia dos Pirenéus, o 6.º
dia do tour ainda não tinha terminado. A tarde ia só a meio e como a organização
tinha estabelecido que a caravana ficaria alojada a cerca de 120 km de
distância, arrancámos depois do Cabo Higuer em direcção à cidade de Vitoria, na
província de Álava.
Na descida para Hondarribia fomos brindados com uma fantástica vista
sobre a costa basco-francesa, onde se destacam as praias de areia dourada
de Hondarribia e de Hendaye, na Baía de Chingudi. Esta é uma baía formada pelo
estuário do rio Bidasoa, entre as cidades de Hondarribia e Irún (Espanha) na
margem esquerda e Hendaye (França) na margem direita.
Deixámos assim para trás a montanha e as estradas reviradas para
voltarmos a abraçar a estrada aberta e as vias rápidas. Um trajecto que
inicialmente seguiu pela costa junto ao Mar Cantábrico, acabou depois
necessariamente por mudar de rumo em direcção ao interior do território
espanhol.
Foi já com a caravana um pouco dispersa que chegámos a Vitoria (oficialmente Vitoria-Gasteiz),
um município da Espanha, na província de Álava (País Basco). O destino final
foi o Sercotel
Boulevard Vitoria, local de alojamento para todos os participantes. O
estacionamento das motas foi desta vez efetuado sem constrangimentos, onde até
foi possível escolher entre o parque exterior junto ao hotel ou o seu parque
subterrâneo.
Devidamente instalados e com o hotel a cerca de 2 km (20 min. a pé) do
centro histórico da cidade, foi para lá que nos dirigimos para visitar o seu
característico Casco
Viejo. Fundada no final do Séc. XII, Vitoria é hoje uma cidade com um
projeto urbanístico exemplar. Conserva um centro medieval onde é possível
encontrar diversos lugares de sabor tradicional, como a Praça da Virgem Branca,
e edifícios históricos, como a Catedral de Santa María.
A capital basca revela um centro histórico onde é possível encontrar
lugares encantadores, jardins e passeios arborizados que fazem da capital
alavesa um pulmão verde sem abrir mão de um urbanismo bem cuidado, onde ruas
medievais se misturam harmoniosamente com palácios renascentistas e igrejas
neoclássicas. O centro nevrálgico da cidade é a Praça da Virgem
Branca, onde se destaca o monumento à batalha de Vitoria. Nela se situa a Igreja
de San Miguel, que guarda a imagem da Virgem Branca, padroeira da cidade. Na
parte mais alta da cidade situa-se a Catedral
de Santa María ou Catedral Velha, um magnífico templo gótico cuja
construção foi iniciada no Séc. XIII e se prolongou durante o século seguinte.
Junto
ao Palácio Villa-Suso, com a Catedral de María Imaculada ou Catedral Nova em
fundo (Vitoria, País Basco).
Uma vez mais com toda a liberdade para escolher um local a gosto para
jantar, acabámos por nos sentar à mesa no restaurante Le
Basque, situado na ladeira da Almendra Medieval (o apelido do centro
histórico de Vitoria, conhecido pela sua forma elíptica que lembra uma amêndoa
e por ser um dos núcleos medievais mais bem preservados do país), em plena Plaza
del Machete e ao lado do Palácio Villa-Suso,
para degustar as iguarias locais.
Depois de interessantes histórias e peripécias partilhadas de forma
animada durante a refeição, seguiu-se um pequeno passeio by night pelas
ruas medievais do casco antiguo, prosseguindo depois para o hotel para
repousar o esqueleto. Até porque no dia seguinte regressaríamos às longas
tiradas, com mais de cinco de centenas de quilómetros em perspectiva.
Continua...
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Arthur Lampkin RIP
Com um glorioso palmarés no FIM Motocross Grand Prix and Trophee des
Nations, Six Days of Enduro e Scottish Six Days Trial, o piloto britânico Arthur Lampkin deixou-nos
no passado dia 21 de fevereiro, quando ia completar a bonita idade de 88 anos.
Filho mais velho de uma dinastia motociclista de Yorkshire, Arthur Lampkin
competiu em diversos eventos de motociclismo off-road, como trial, motocross e
enduro. Na década de 1960, Lampkin tornou-se membro da equipa de fábrica BSA
junto com seu irmão Alan. Juntamente com Dave Bickers e Jeff
Smith, fez parte de um grupo de motociclistas britânicos que dominou o
motocross nessa época.
Arthur Lampkin venceu o campeonato nacional britânico de motocross 500cc
em 1959 e o campeonato nacional britânico de motocross 250cc em 1961, o mesmo
ano em que foi vice-campeão mundial de 250cc. Foi membro de duas equipas
britânicas vencedoras do Trophée des Nations (1961, 1962) e cinco vitórias
consecutivas como membro da equipa britânica de Motocross des Nations
(1963-1967).
A tenacidade que demonstrava nas diversas competições de off-road, levou-o
a vencer eventos prestigiados como o Scottish Six Days Trial de 1963
e o Scott Trial em 1960, 1961 e 1965. Lampkin também competiu
internacionalmente em eventos de enduro, representando a Grã-Bretanha e
conquistando a medalha de ouro no International Six Days Trial de
1966, realizado na Suécia.
Os irmãos mais novos de Arthur Lampkin, Alan e Martin Lampkin, também
tiveram sucesso em competições de motociclismo off-road. Alan venceu o
campeonato britânico de trial, enquanto Martin tornou-se campeão britânico de
trial, além de vencer a primeira edição do Campeonato Mundial de Trial da FIM,
em 1975. Para os mais distraídos, de referir que Martin Lampkin é o pai de Dougie Lampkin, um dos
maiores pilotos de trial de todos os tempos, com 12 títulos de Campeão Mundial
(durante a década de 90 e no início deste século), e que chegou a competir diversas
vezes em Portugal.
Arthur Lampkin faleceu aos 87 anos, após uma luta contra o cancro.
R.I.P.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
Best Pirinéus Tour 2025 #5/8
Dia 5 (30/07/2025): Biescas – Jaca
Mais um dia repleto de emoção no Best Pirinéus Tour 2025, com a passagem
em diversos col´s de alta montanha, sempre bem enquadrados por grandiosas
paisagens.
Pese embora o ponto de partida e o ponto de chegada do 5.º dia do tour
distarem apenas 30 km por estrada um do outro, a rota programada era substancialmente
mais alargada. Levar-nos-ia por terras espanholas e francesas, com subida aos
lagos de Panticosa, passagem no Col du Pourtalet, Col du Soulour, Col du
Somport, Col de Marie Blanque, entre outros, visita à recuperada Estação Ferroviária
de Canfranc, e chegada a Jaca (cidade património da Unesco) pela tarde.
Despachadas as tarefas matinais da tomada do pequeno-almoço no hotel, da
arrumação da bagagem e da lubrificação da corrente da mota, a caravana deixou então
a vila de Biescas por volta das 08h30 rumo aos lagos de Panticosa.
Numa curta tirada de 25 km, por uma estrada que também foi uma antiga
rota para a França através do Port du Marcadau (usada em tempos anteriores por
pastores e contrabandistas), chegávamos ao Ibón de los Baños.
Um lago natural localizado no Vale do Tena, a uma altitude de 1.630 m, que
coleta as águas das torrentes que descem dos picos circundantes para dar origem
ao Rio Caldarés.
O lago encontra-se nas imediações de um conjunto de fontes termais
conhecidas desde a época romana, com temperaturas que atingem os 49 °C. As suas
propriedades benéficas para a saúde deram origem a um conceituado spa
com edifícios modernistas (Baños de Panticosa),
declarado Património Cultural, e que oferece diversos serviços de saúde e
beleza.
Após a breve paragem junto ao tranquilo Ibón de los Baños, a caravana do
Best Pirinéus Tour 2025 seguiu montanha acima, em direcção ao território
francês. Com o passar dos quilómetros e à medida que a altitude aumentava, por
oposição a temperatura ambiente ia gradualmente diminuindo. Nada que uma camada
extra de roupa não tenha resolvido a questão.
Na passagem pelo Col
du Pourtalet, um passo de montanha a 1.794 m de altitude na fronteira entre
Espanha e França, efectuámos uma pequena pausa para tomar um café e aquecer um
pouco. Por aqui encontrámos também alguns mamíferos ruminantes (gado bovino)
que, vindos dos pastos circundantes, não se fizeram rogados em invadir o
estacionamento e a estrada. Uma situação comum nestas paragens e para a qual é
necessário ter atenção redobrada.
Das paisagens mais agrestes às mais verdejantes, os Pirenéus Atlânticos
(Pyrénées
Atlantiques) deslumbram todos os que por aqui passam. Num autêntico bailado
de curvas e contra-curvas, com ganchos apertados, subidas íngremes e descidas
acentuadas, as reviradas estradas em redor destas montanhas são extremamente
viciantes e difíceis de resistir para todos aqueles que adoram viajar,
especialmente em duas rodas.
A caminho do Col
d’Aubisque, mais um passo de montanha acima dos 1.700 m de altitude, (1.709
m), as esculturas de bicicletas que se podem ver em alguns locais junto à
estrada não deixam dúvidas. Este local é também um paraíso para os entusiastas
das bicicletas de estrada, sendo regularmente integrado no Tour de France,
geralmente classificado como uma escalada de categoria especial (hors catégorie).
Por aqui os cenários são de cortar a respiração. E mesmo a calhar, junto
ao hotel e restaurante Les Crêtes Blanches, tivemos a oportunidade de parar as
motas para apreciar a grandiosa e deslumbrante vista dos penhascos em redor.
Majestoso, sem dúvida!
E qual não é o meu espanto quando, de repente, surge na estrada uma mota
bem diferente das modernas turísticas de aventura, supostamente mais adaptadas
a este tipo de terreno. Tratava-se de uma idosa e respeitada BSA 500 cc de 1936
(provavelmente uma Model Q7), muito bem conservada, com condutor, passageiro e
até alguma bagagem. Se dúvidas houvesse, ficou comprovado que não são só as
motas trail e afins que andam pelos Pirenéus. É caso para dizer: velhos
são os trapos!
Fazendo fronteira com os Pirenéus Atlânticos, a região dos Altos
Pirenéus (hautes-pyrénées)
configura várias áreas geográficas distintas. A zona sul, ao longo da fronteira
com a Espanha, é composta por montanhas como o Vignemale, o Pic du Midi de
Bigorre e as cadeias Neouvielle e Arbizon. Uma segunda área consiste em colinas
onduladas de baixa altitude. A parte norte é composta em grande parte por
terras agrícolas planas.
Mas são os passos de montanha que, com as suas características
particulares, acabam por ser as atracções da região e definir muitos dos seus
pontos turísticos, como é o caso do Col
Du Soulor (1.474 m). Este local foi também palco de inúmeras ascensões no
Tour de France, mas apenas quinze (entre 1973 e 2025) contaram para a
classificação do prémio da montanha (nas restantes, os pontos da montanha foram
atribuídos apenas no Col d'Aubisque).
Após uma pausa para tomar uma água, apreciar as vistas e juntar o grupo
que já vinha um pouco disperso, retomámos a estrada e a rota do Best Pirinéus
Tour 2025, não em direcção à cidade de Lourdes e ao seu conhecido santuário
mariano, mas de volta aos Pirenéus Atlânticos rumo a Asson.
Uma curiosidade na passagem pela povoação de Ferrières (Occitânia), onde
se pode observar que a placa que identifica a localidade está “de pernas para o
ar”. A colocação de placas de identificação de localidades ao contrário é
um ato deliberado, geralmente motivado por protestos políticos ou sociais.
Na região espanhola da Catalunha, ativistas têm desaparafusado e virado as
placas que indicam o nome dos locais como forma de chamar a atenção para
determinadas causas ou reivindicações, como a independência da região.
Asson emerge na
província de Béarn, entre colinas e picos altos. Está localizada no vale Gave
de Pau, não muito longe de Coarraze, Bourdettes e Arthez-d'Asson. Antiga, a
vila desenvolveu-se durante muito tempo em torno da sua abadia secular, vassala
do Visconde de Béarn, da qual se libertou na segunda metade do Séc. XIII. Hoje,
esta cidade no sudoeste da França é conhecida pelas suas paisagens intocadas,
mas também por fazer parte da área de denominação de Ossau-iraty, pelos
“Haricots Tarbais IGP” (feijões brancos com pele fina, textura delicada e carne
derretida), pelo queijo “tomme noire des Pyrénées”, pato com foie gras
do sudoeste e presunto de Bayonne que atraem bons gourmets.
Tudo bons motivos para uma boa degustação. Mas seria cerca de 5 km
depois, na pequena localidade de Bruges (comuna de Bruges-Capbis-Mifaget), que
nos sentaríamos à mesa do Café
Restaurant du Commerce para o aguardado almoço. Um restaurante familiar,
com cozinha de boa qualidade e pratos simples, mas caseiros.
O acesso ao passo de montanha seguinte parecia agora mais difícil devido
ao “peso extra” do almoço, pese embora os pouco mais de 1.000 m de altitude que
teríamos de vencer para lá chegar. Tratou-se do Col
de Marie Blanque (1.035 m), localizado na estrada de ligação entre os dois
vales vizinhos, o vale do Aspe e o vale do Ossau. Foi igualmente utilizado com
regularidade pelo Tour de France, habitualmente classificado como uma escalada
de primeira categoria (1re catégorie).
Antes da travessia do último passo do dia, o Col
du Somport (porto montanhoso localizado na fronteira entre França e Espanha,
a uma altitude de 1.640 m), uma curiosa construção na rocha fez-me desviar o
olhar da estrada por breves momentos. Tratava-se do Fort du Portalet (na comuna
de Etsaut), erigido num penhasco com cerca de 800 m de altura, com
vista para o rio Gave d'Aspe. Responsável por proteger a estrada para
o Col du Somport, destacam-se as galerias escavadas na rocha, ameadas ou
com brechas.
De regresso ao território espanhol, chegávamos a um dos locais mais
emblemáticos dos Pirenéus para uma visita à antiga Estação
Ferroviária Internacional de Canfranc, uma imponente estação fronteiriça
entre Espanha e França, inaugurada em 1928, construída para as transferências
entre comboios espanhóis e franceses (que utilizavam bitolas ferroviárias
diferentes).
O edifício principal tem uns impressionantes 241 m de comprimento, com
300 janelas e 156 portas (era a segunda maior da Europa, atrás da estação de
Leipzig, Alemanha). Interligou as cidades de Saragoça (Espanha) e Pau (França)
até 1970, onde um acidente com
um comboio levou ao colapso da ponte de L’Estanguet (lado francês) e ao fim da
circulação ferroviária nesta linha. Abandonada desde então, a estação voltou a
abrir as suas portas em 2023 como hotel
de luxo.
Durante a II Guerra Mundial, Canfranc testemunhou detenções, espionagem
e tráfico de ouro, adquirindo a reputação de “Casablanca nos Pirenéus”. No ano
2000, foram aqui acidentalmente descobertos mais de mil documentos que mostram
que cerca de 75 toneladas de ouro nazi passaram pela fronteira a caminho de
Portugal, contrariando a neutralidade oficial do país.
Ficou assim demonstrado o envolvimento português no maior conflito
bélico acorrido até hoje, nomeadamente através do comércio ilegal de volfrâmio
com os alemães. A elevada resistência deste minério a altas temperaturas e a
sua capacidade de tornar as ligas metálicas ainda mais fortes e duradouras,
tornavam-no uma matéria-prima crucial para a indústria do armamento (mais
detalhes sobre esta história no Episódio 5 da série
documental Portugal Secreto).
Canfranc encerra em si mesmo uma certa aura de mistério, e até de
secretismo, digna do enredo de um filme de Hollywood. E como que para continuar
a alimentar esta mística, o Túnel de Somport da ferrovia abandonada, bem no
coração da montanha, é agora utilizado pelo Laboratório
Subterrâneo de Canfranc, um laboratório científico que, protegido da
radiação cósmica, se dedica sobretudo ao estudo de fenómenos naturais de
ocorrência rara, como as interações dos neutrinos de origem cósmica ou da
matéria escura com os núcleos atómicos. Parte do túnel é também utilizado como
faixa de emergência para o actual Túnel Rodoviário de Somport.
Histórias à parte e de regresso ao tour, cerca de duas dezenas de
quilómetros depois chegávamos então a Jaca (província de Huesca,
Aragão), concluindo assim o percurso do 5.º dia do Best Pirinéus Tour 2025. A
comitiva ficou alojada no Hotel
Oroel, localizado no coração da cidade, a poucos passos do centro histórico.
Com as motas guardadas no parque de estacionamento coberto do hotel, o final da
tarde foi aproveitado para conhecer um pouco melhor “a pérola dos Pirenéus”,
como também é conhecida.
Jaca é uma cidade europeia e cosmopolita, paragem fundamental do Caminho
de Santiago. É imprescindível visitar a Cidadela, exemplar da
arquitetura militar do Séc. XVI e declarada Monumento Histórico-Artístico. A
sua construção começou em 1592, tem uma planta pentagonal de grandiosas
dimensões, um fosso, e está construída em terreno plano. Existem outros
edifícios muito importantes, como a Catedral
românica (Séc. XI), declarada Monumento Nacional, o Mosteiro
dos Beneditinos, a Igreja de
Santiago, a Ermida
de Sarsa, a Ponte
medieval de San Miguel, a Torre do Relógio
(Séc. XV) e a Prefeitura.
Entre as suas festas destaca-se a da primeira sexta-feira de maio, que
comemora uma batalha medieval. São feitos torneios, duelos a cavalo, um bonito
espetáculo de “volteo de banderas” e provas de antigos desportos aragoneses
como o arremesso de barra.
Acabámos por ser surpreendidos pelas largas centenas de pessoas que se aglomeravam
ao longo da principal artéria da cidade, sempre muito animadas como é apanágio
do povo espanhol. Percebemos depois que decorria o desfile dos grupos
participantes na 53.ª edição do Festival
Folklórico de los Pirineos, o evento mais antigo da Espanha e um dos mais
reconhecidos do mundo. Declarado Festival de Interesse Turístico Nacional, é
celebrado nos anos ímpares e, até 2009, alternava a sua organização com o
município francês de Oloron-Sainte-Marie.
O evento reúne grupos folclóricos de diversos países e continentes.
Música de rua e danças são combinadas com shows de palco, exposições e mostras gastronómicas.
Neste final de tarde desfilaram grupos de Jaca, Ronda, Zamora, Marselha, Equador,
Geórgia, Colômbia, Montenegro, México, Índia, Cuba, Turquia, Lesoto e Malásia.
Devido à grande quantidade de restaurantes existentes em Jaca, a
organização decidiu novamente não juntar o jantar ao alojamento no hotel.
Assim, cada um ficou livre para escolher o que mais lhe apetecia comer. Mas com
a grande quantidade de gente na cidade devido ao festival folclórico, encontrar
um restaurante com mesa disponível não foi tarefa fácil. Após alguma procura,
acabou por ser no Bar
Jolio Jaca, perto da Igreja
de Nossa Senhora de El Cármen, que nos conseguimos sentar para jantar.
Com um pequeno passeio nocturno pelas ruas de Jaca antes de regressar ao
hotel, demos por terminado mais um dia em cheio por terras pirenaicas. No dia
seguinte, o Best Pirinéus Tour 2025 iria certamente proporcionar novas e
entusiasmantes aventuras para todos os participantes.
Continua...
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
Boas Festas 2025
A ‘Fita de Asfalto’ deseja a todos os motociclistas e entusiastas das
motos um Feliz Natal e umas boas entradas no ano de 2026.
Regressando ao infindável tema das IPO (Inspeções Periódicas
Obrigatórias), é sabido que os motociclistas cuidam das suas motos, porque
sabem que as suas vidas dependem disso. E os vários estudos e diferentes
estatísticas comprovam que as IPO não são sinónimo de maior segurança
rodoviária ou redução da sinistralidade. Ainda assim, esta polémica continua a
dar que falar, e o que parecia definitivo,
afinal poderá não ser. Ou será que é?
Resumindo, a Comissão Europeia decidiu procurar sobrepor-se à vontade
dos Estados-Membro e recolocou na agenda as Inspeções às motos, passando desta
vez a querer forçar
os países que ainda não têm inspeções, a aplicarem uma nova legislação europeia
que as tornará absolutamente obrigatórias. Mas no que parece ser uma reviravolta,
o Conselho da UE decidiu que não haverá IPO para motociclos. Esperemos que seja
desta.
Votos de Boas Festas e Boas Curvas... em segurança!
Subscrever:
Comentários (Atom)





































