Dia 6 (31/07/2025): Jaca – Cabo Higuer – Vitoria
Este dia marcava a chegada ao Mar Cantábrico (Golfo da Biscaia), final simbólico
da nossa travessia dos Pirenéus (Transpirenaica). Contudo, o 6.º dia do tour
tinha reservado mais uma jornada repleta de aventuras e de grande beleza e
interesse, com a passagem no pass de Roncesvalles, em Saint-Jean-Pied-de-Port,
e muito mais.
A caravana do Best Pirinéus Tour 2025 foi para a estrada à hora
habitual, pelas 08h30, depois de cumpridas as já rotineiras tarefas matinais com
a tomada do pequeno-almoço, a arrumação da bagagem e a lubrificação das
correntes das motas (para os não BMW GS...).
Com a Serra de Leyre
em pano de fundo, a rota do tour levou-nos pelo vale do Rio Aragón a
caminho da comunidade autónoma de Navarra. Esta cordilheira forma um corredor
entre Navarra e Aragão, uma passagem histórica utilizada por aqueles que
viajavam de um reino para o outro. O Caminho de Santiago
passa por ali onde, seguindo a variante de Toulouse, os peregrinos atravessavam
os Pirenéus via Jaca.
Nesta região dos Pirenéus Navarros a caminho de França destaca-se o Bosque de Irati, uma das
maiores e mais belas extensões de floresta nativa da Europa. A área oferece
emocionantes rotas de montanha e paisagens naturais deslumbrantes para
desfrutar de mota. Para além da sua beleza natural, o Bosque de Irati é um
local repleto de vida selvagem, com uma riqueza de animais e plantas
autóctones. Pode-se parar nos miradouros e apreciar a vista da região e da sua
vida selvagem.
Entretanto, o céu ia ficando cada vez mais fechado. Uma chuva miudinha
mas persistente levou a uma paragem para vestir os fatos impermeáveis, junto à La
Posada de Roncesvalles, onde aproveitámos para tomar um café e aquecer um
pouco. E se dúvidas houvesse, aqui está a prova provada de que o fato de chuva
deve sempre fazer parte da bagagem de qualquer viagem de mota,
independentemente da altura do ano em que se realize.
A vila de Roncesvalles
é conhecida por ser um importante ponto de passagem na rota de peregrinação do
Caminho de Santiago. Foi o cenário da Batalha de Roncesvalles em 778 d.C., onde
a retaguarda do exército de Carlos Magno, liderada pelo cavaleiro Roldán, foi
derrotada. Este evento inspirou a famosa epopeia medieval o “Cantar de Roldán”.
É também um destino popular para os motociclistas que procuram emocionantes
rotas de montanha.
Enquanto aguardava pelo retomar da marcha, reparei num grupo de três motas
clássicas estacionadas nas imediações da pousada. Com natural curiosidade, percebi
que estava na presença de uma Velocette de 1938, de uma Cemec L7 750 cc de
1951 e de uma Terrot (provavelmente uma RGST 500 cc da década de 1950), todas bem
conservadas e carregadas de bagagem. Verdadeiras viajantes de outros tempos.
Lembrei-me de imediato da BSA 500 cc de 1936 que tinha visto na véspera,
a caminho do Col d’Aubisque. Seria coincidência? Estariam de algum modo relacionadas?
A resposta veio através de uma placa colocada na lateral de uma das motas, com
a indicação 7e
Tour Basco-Béarnais de Motos Anciennes. Estava desvendado o mistério. Tratava-se
de um evento turístico de 4 dias pelos Pirenéus Atlânticos (País Basco - Béarn),
incluindo algumas passagens de montanha lendárias do Tour de France, reservado
a motas de época até 1965 e organizado pelo clube de motas antigas Les
Pétochons Pyrénéens, de Bugnein (França). Valentes!
De novo na estrada e um pouco mais à frente surgia o Porto
de Ibañeta (Passo de Roncesvalles), o local de maior altitude (1.057 m) que
foi transporto neste 6.º dia do tour. Aqui encontra-se a Capela de San
Salvador (construída em 1965 sobre ruínas de 1127, que historicamente servia
para guiar peregrinos com o toque de um sino em dias de nevoeiro) e um memorial
em pedra dedicado a Roldán.
A fronteira com França já não estava longe, o que acontece com a
travessia do curso do Nive d'Arnéguy. O caminho até lá foi percorrido num
intenso ziguezaguear que fez as delícias de todos os condutores e respectivas motas.
Inserida na confluência dos rios Nive e Laurhibar, Saint-Jean-Pied-de-Port
deve o seu nome à sua localização ao pé do passo de Roncesvalles. Antiga
capital política e administrativa da Baixa Navarra, é hoje um centro económico,
cultural e desportivo do País Basco francês. É também uma paragem na
peregrinação a Santiago de Compostela, com cerca de 60.000 peregrinos por ano. Esta
localidade medieval cativa todos os que lá chegam com as suas ruas calcetadas,
a ponte sobre o rio Nive e a sua imponente cidadela.
Saint-Jean-Pied-de-Port é um local repleto de história e charme, com um
centro histórico que alberga vários edifícios e monumentos históricos. A Igreja da Assunção
da Virgem (Eglise de l'Assomption de la Vierge) é um dos marcos mais
emblemáticos da cidade, oferecendo vistas deslumbrantes para as montanhas e
para o vale circundante. Em 2016, foi admitida na associação das Aldeias
Mais Belas da França.
Daqui até ao Vale
de Baztán é um pulinho. Esta bela zona rural na província de Navarra é conhecida
pelas suas montanhas verdejantes, vales férteis e riachos cristalinos. Um local
popular para os amantes da natureza e entusiastas de desportos ao ar livre. Para
além da sua beleza natural, o Vale de Baztán é também conhecido pela sua rica
história e património cultural. A área alberga muitos monumentos e edifícios
históricos, como a Igreja de San Esteban, o Castelo de Olite e o Mosteiro de
Iratxo.
As casas no País Basco francês, conhecidas como Etxea (casa, no idioma
basco), destacam-se pelo seu estilo simétrico, fachadas brancas, madeirame
colorido (maioritariamente vermelho) e telhados de duas águas. Muito mais do
que uma casa, representa a continuidade da família e o património. Estas
habitações tradicionais são um ícone da arquitetura local.
O Golfo da Biscaia e o Mar Cantábrico estavam cada vez mais perto. Mas
até lá chegar impunha-se uma importante paragem para repor os níveis de energia
dos condutores. O sempre bem-vindo almoço acabou por ter lugar no Kinka
Restaurant Et Bar, perto da localidade de Saint-Pée-sur-Nivelle, onde tive
a oportunidade de experimentar pela primeira vez uma Euskola, a cola do País Basco. E não fiquei
desiludido, diga-se.
Pouco mais de duas dezenas de quilómetros depois e já com Hondarribia à
vista, a entrada em Espanha acontece com travessia do rio Bidasoa, junto à sua
foz, que representa também a entrada na província de Gipuzkoa.
Hondarribia
é uma charmosa cidade costeira de Gipuzkoa, no País Basco espanhol. Destaca-se
pelo seu centro histórico amuralhado, repleto de edifícios senhoriais e que foi
declarado Monumento Histórico-Artístico, pelo colorido bairro de pescadores da
Marina, excelente gastronomia (especialmente pintxos e marisco) e uma praia
tranquila.
No recinto amuralhado, na parte mais alta da cidade está situada a praça
de Armas, num dos lados fica o Castelo do Imperador Carlos V, onde hoje
funciona o Parador de Turismo, estendendo-se junto ao mar o bairro de La
Marina. Este núcleo marítimo, possivelmente o mais antigo da vila, oferece a
atmosfera mais popular de Hondarribia. Nas suas ruas, especialmente na de San
Pedro, há uma sequência de típicas casas de marinheiros pintadas com cores
vibrantes, onde se encontrará o lugar ideal para um passeio ou um aperitivo.
A 4 quilómetros de distância para Norte fica o ponto mais oriental do Mar
Cantábrico, o Cabo Higuer,
que marca o confim noroeste dos Pirenéus. A chegada ao farol (Faro
de Higuer) marcou também o final simbólico da nossa travessia dos Pirenéus
(Transpirenaica). Um magnífico passeio de quatro dias com muitas curvas, diversas
subidas, descidas e travessias de alta montanha, por locais fantásticos e paisagens
arrebatadoras, tudo em boa companhia. Assim vale apena!
Apesar de termos concluído com sucesso a travessia dos Pirenéus, o 6.º
dia do tour ainda não tinha terminado. A tarde ia só a meio e como a organização
tinha estabelecido que a caravana ficaria alojada a cerca de 120 km de
distância, arrancámos depois do Cabo Higuer em direcção à cidade de Vitoria, na
província de Álava.
Na descida para Hondarribia fomos brindados com uma fantástica vista
sobre a costa basco-francesa, onde se destacam as praias de areia dourada
de Hondarribia e de Hendaye, na Baía de Chingudi. Esta é uma baía formada pelo
estuário do rio Bidasoa, entre as cidades de Hondarribia e Irún (Espanha) na
margem esquerda e Hendaye (França) na margem direita.
Deixámos assim para trás a montanha e as estradas reviradas para
voltarmos a abraçar a estrada aberta e as vias rápidas. Um trajecto que
inicialmente seguiu pela costa junto ao Mar Cantábrico, acabou depois
necessariamente por mudar de rumo em direcção ao interior do território
espanhol.
Foi já com a caravana um pouco dispersa que chegámos a Vitoria (oficialmente Vitoria-Gasteiz),
um município da Espanha, na província de Álava (País Basco). O destino final
foi o Sercotel
Boulevard Vitoria, local de alojamento para todos os participantes. O
estacionamento das motas foi desta vez efetuado sem constrangimentos, onde até
foi possível escolher entre o parque exterior junto ao hotel ou o seu parque
subterrâneo.
Devidamente instalados e com o hotel a cerca de 2 km (20 min. a pé) do
centro histórico da cidade, foi para lá que nos dirigimos para visitar o seu
característico Casco
Viejo. Fundada no final do Séc. XII, Vitoria é hoje uma cidade com um
projeto urbanístico exemplar. Conserva um centro medieval onde é possível
encontrar diversos lugares de sabor tradicional, como a Praça da Virgem Branca,
e edifícios históricos, como a Catedral de Santa María.
A capital basca revela um centro histórico onde é possível encontrar
lugares encantadores, jardins e passeios arborizados que fazem da capital
alavesa um pulmão verde sem abrir mão de um urbanismo bem cuidado, onde ruas
medievais se misturam harmoniosamente com palácios renascentistas e igrejas
neoclássicas. O centro nevrálgico da cidade é a Praça da Virgem
Branca, onde se destaca o monumento à batalha de Vitoria. Nela se situa a Igreja
de San Miguel, que guarda a imagem da Virgem Branca, padroeira da cidade. Na
parte mais alta da cidade situa-se a Catedral
de Santa María ou Catedral Velha, um magnífico templo gótico cuja
construção foi iniciada no Séc. XIII e se prolongou durante o século seguinte.
Junto
ao Palácio Villa-Suso, com a Catedral de María Imaculada ou Catedral Nova em
fundo (Vitoria, País Basco).
Uma vez mais com toda a liberdade para escolher um local a gosto para
jantar, acabámos por nos sentar à mesa no restaurante Le
Basque, situado na ladeira da Almendra Medieval (o apelido do centro
histórico de Vitoria, conhecido pela sua forma elíptica que lembra uma amêndoa
e por ser um dos núcleos medievais mais bem preservados do país), em plena Plaza
del Machete e ao lado do Palácio Villa-Suso,
para degustar as iguarias locais.
Depois de interessantes histórias e peripécias partilhadas de forma
animada durante a refeição, seguiu-se um pequeno passeio by night pelas
ruas medievais do casco antiguo, prosseguindo depois para o hotel para
repousar o esqueleto. Até porque no dia seguinte regressaríamos às longas
tiradas, com mais de cinco de centenas de quilómetros em perspectiva.
Continua...














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