terça-feira, 24 de março de 2026

Best Pirinéus Tour 2025 #6/8

Dia 6 (31/07/2025): Jaca – Cabo Higuer – Vitoria

Este dia marcava a chegada ao Mar Cantábrico (Golfo da Biscaia), final simbólico da nossa travessia dos Pirenéus (Transpirenaica). Contudo, o 6.º dia do tour tinha reservado mais uma jornada repleta de aventuras e de grande beleza e interesse, com a passagem no pass de Roncesvalles, em Saint-Jean-Pied-de-Port, e muito mais.

Dia 6 – 370 km.

A caravana do Best Pirinéus Tour 2025 foi para a estrada à hora habitual, pelas 08h30, depois de cumpridas as já rotineiras tarefas matinais com a tomada do pequeno-almoço, a arrumação da bagagem e a lubrificação das correntes das motas (para os não BMW GS...).

Com a Serra de Leyre em pano de fundo, a rota do tour levou-nos pelo vale do Rio Aragón a caminho da comunidade autónoma de Navarra. Esta cordilheira forma um corredor entre Navarra e Aragão, uma passagem histórica utilizada por aqueles que viajavam de um reino para o outro. O Caminho de Santiago passa por ali onde, seguindo a variante de Toulouse, os peregrinos atravessavam os Pirenéus via Jaca.

Nesta região dos Pirenéus Navarros a caminho de França destaca-se o Bosque de Irati, uma das maiores e mais belas extensões de floresta nativa da Europa. A área oferece emocionantes rotas de montanha e paisagens naturais deslumbrantes para desfrutar de mota. Para além da sua beleza natural, o Bosque de Irati é um local repleto de vida selvagem, com uma riqueza de animais e plantas autóctones. Pode-se parar nos miradouros e apreciar a vista da região e da sua vida selvagem.

Entretanto, o céu ia ficando cada vez mais fechado. Uma chuva miudinha mas persistente levou a uma paragem para vestir os fatos impermeáveis, junto à La Posada de Roncesvalles, onde aproveitámos para tomar um café e aquecer um pouco. E se dúvidas houvesse, aqui está a prova provada de que o fato de chuva deve sempre fazer parte da bagagem de qualquer viagem de mota, independentemente da altura do ano em que se realize.

A vila de Roncesvalles é conhecida por ser um importante ponto de passagem na rota de peregrinação do Caminho de Santiago. Foi o cenário da Batalha de Roncesvalles em 778 d.C., onde a retaguarda do exército de Carlos Magno, liderada pelo cavaleiro Roldán, foi derrotada. Este evento inspirou a famosa epopeia medieval o “Cantar de Roldán”. É também um destino popular para os motociclistas que procuram emocionantes rotas de montanha.

Enquanto aguardava pelo retomar da marcha, reparei num grupo de três motas clássicas estacionadas nas imediações da pousada. Com natural curiosidade, percebi que estava na presença de uma Velocette de 1938, de uma Cemec L7 750 cc de 1951 e de uma Terrot (provavelmente uma RGST 500 cc da década de 1950), todas bem conservadas e carregadas de bagagem. Verdadeiras viajantes de outros tempos.

Velocette de 1938.

Cemec L7 750 cc de 1951.

Terrot (provavelmente uma RGST 500 cc da década de 1950).

Lembrei-me de imediato da BSA 500 cc de 1936 que tinha visto na véspera, a caminho do Col d’Aubisque. Seria coincidência? Estariam de algum modo relacionadas? A resposta veio através de uma placa colocada na lateral de uma das motas, com a indicação 7e Tour Basco-Béarnais de Motos Anciennes. Estava desvendado o mistério. Tratava-se de um evento turístico de 4 dias pelos Pirenéus Atlânticos (País Basco - Béarn), incluindo algumas passagens de montanha lendárias do Tour de France, reservado a motas de época até 1965 e organizado pelo clube de motas antigas Les Pétochons Pyrénéens, de Bugnein (França). Valentes!

De novo na estrada e um pouco mais à frente surgia o Porto de Ibañeta (Passo de Roncesvalles), o local de maior altitude (1.057 m) que foi transporto neste 6.º dia do tour. Aqui encontra-se a Capela de San Salvador (construída em 1965 sobre ruínas de 1127, que historicamente servia para guiar peregrinos com o toque de um sino em dias de nevoeiro) e um memorial em pedra dedicado a Roldán.

A fronteira com França já não estava longe, o que acontece com a travessia do curso do Nive d'Arnéguy. O caminho até lá foi percorrido num intenso ziguezaguear que fez as delícias de todos os condutores e respectivas motas.

Inserida na confluência dos rios Nive e Laurhibar, Saint-Jean-Pied-de-Port deve o seu nome à sua localização ao pé do passo de Roncesvalles. Antiga capital política e administrativa da Baixa Navarra, é hoje um centro económico, cultural e desportivo do País Basco francês. É também uma paragem na peregrinação a Santiago de Compostela, com cerca de 60.000 peregrinos por ano. Esta localidade medieval cativa todos os que lá chegam com as suas ruas calcetadas, a ponte sobre o rio Nive e a sua imponente cidadela.

Saint-Jean-Pied-de-Port é um local repleto de história e charme, com um centro histórico que alberga vários edifícios e monumentos históricos. A Igreja da Assunção da Virgem (Eglise de l'Assomption de la Vierge) é um dos marcos mais emblemáticos da cidade, oferecendo vistas deslumbrantes para as montanhas e para o vale circundante. Em 2016, foi admitida na associação das Aldeias Mais Belas da França.

Daqui até ao Vale de Baztán é um pulinho. Esta bela zona rural na província de Navarra é conhecida pelas suas montanhas verdejantes, vales férteis e riachos cristalinos. Um local popular para os amantes da natureza e entusiastas de desportos ao ar livre. Para além da sua beleza natural, o Vale de Baztán é também conhecido pela sua rica história e património cultural. A área alberga muitos monumentos e edifícios históricos, como a Igreja de San Esteban, o Castelo de Olite e o Mosteiro de Iratxo.

As casas no País Basco francês, conhecidas como Etxea (casa, no idioma basco), destacam-se pelo seu estilo simétrico, fachadas brancas, madeirame colorido (maioritariamente vermelho) e telhados de duas águas. Muito mais do que uma casa, representa a continuidade da família e o património. Estas habitações tradicionais são um ícone da arquitetura local.

As fachadas brancas e o madeirame vermelho nas casas do País Basco francês.

O Golfo da Biscaia e o Mar Cantábrico estavam cada vez mais perto. Mas até lá chegar impunha-se uma importante paragem para repor os níveis de energia dos condutores. O sempre bem-vindo almoço acabou por ter lugar no Kinka Restaurant Et Bar, perto da localidade de Saint-Pée-sur-Nivelle, onde tive a oportunidade de experimentar pela primeira vez uma Euskola, a cola do País Basco. E não fiquei desiludido, diga-se.

Euskola, a cola do País Basco.

Pouco mais de duas dezenas de quilómetros depois e já com Hondarribia à vista, a entrada em Espanha acontece com travessia do rio Bidasoa, junto à sua foz, que representa também a entrada na província de Gipuzkoa.

Hondarribia é uma charmosa cidade costeira de Gipuzkoa, no País Basco espanhol. Destaca-se pelo seu centro histórico amuralhado, repleto de edifícios senhoriais e que foi declarado Monumento Histórico-Artístico, pelo colorido bairro de pescadores da Marina, excelente gastronomia (especialmente pintxos e marisco) e uma praia tranquila.

No recinto amuralhado, na parte mais alta da cidade está situada a praça de Armas, num dos lados fica o Castelo do Imperador Carlos V, onde hoje funciona o Parador de Turismo, estendendo-se junto ao mar o bairro de La Marina. Este núcleo marítimo, possivelmente o mais antigo da vila, oferece a atmosfera mais popular de Hondarribia. Nas suas ruas, especialmente na de San Pedro, há uma sequência de típicas casas de marinheiros pintadas com cores vibrantes, onde se encontrará o lugar ideal para um passeio ou um aperitivo.

Hondarribia, charmosa cidade costeira de Gipuzkoa (País Basco).

A 4 quilómetros de distância para Norte fica o ponto mais oriental do Mar Cantábrico, o Cabo Higuer, que marca o confim noroeste dos Pirenéus. A chegada ao farol (Faro de Higuer) marcou também o final simbólico da nossa travessia dos Pirenéus (Transpirenaica). Um magnífico passeio de quatro dias com muitas curvas, diversas subidas, descidas e travessias de alta montanha, por locais fantásticos e paisagens arrebatadoras, tudo em boa companhia. Assim vale apena!

A chegada ao Cabo Higuer (País Basco, Espanha).

Farol do Cabo Higuer, final simbólico da nossa Transpirenaica (País Basco, Espanha).

Apesar de termos concluído com sucesso a travessia dos Pirenéus, o 6.º dia do tour ainda não tinha terminado. A tarde ia só a meio e como a organização tinha estabelecido que a caravana ficaria alojada a cerca de 120 km de distância, arrancámos depois do Cabo Higuer em direcção à cidade de Vitoria, na província de Álava.

Na descida para Hondarribia fomos brindados com uma fantástica vista sobre a costa basco-francesa, onde se destacam as praias de areia dourada de Hondarribia e de Hendaye, na Baía de Chingudi. Esta é uma baía formada pelo estuário do rio Bidasoa, entre as cidades de Hondarribia e Irún (Espanha) na margem esquerda e Hendaye (França) na margem direita.

Vista para as praias de Hondarribia (Espanha) e de Hendaye (França), na Baía de Chingudi.

Deixámos assim para trás a montanha e as estradas reviradas para voltarmos a abraçar a estrada aberta e as vias rápidas. Um trajecto que inicialmente seguiu pela costa junto ao Mar Cantábrico, acabou depois necessariamente por mudar de rumo em direcção ao interior do território espanhol.

Foi já com a caravana um pouco dispersa que chegámos a Vitoria (oficialmente Vitoria-Gasteiz), um município da Espanha, na província de Álava (País Basco). O destino final foi o Sercotel Boulevard Vitoria, local de alojamento para todos os participantes. O estacionamento das motas foi desta vez efetuado sem constrangimentos, onde até foi possível escolher entre o parque exterior junto ao hotel ou o seu parque subterrâneo.

Devidamente instalados e com o hotel a cerca de 2 km (20 min. a pé) do centro histórico da cidade, foi para lá que nos dirigimos para visitar o seu característico Casco Viejo. Fundada no final do Séc. XII, Vitoria é hoje uma cidade com um projeto urbanístico exemplar. Conserva um centro medieval onde é possível encontrar diversos lugares de sabor tradicional, como a Praça da Virgem Branca, e edifícios históricos, como a Catedral de Santa María.

Muralha Medieval (Vitoria, País Basco).

Torre octogonal da Catedral de Santa María (Vitoria, País Basco).

A capital basca revela um centro histórico onde é possível encontrar lugares encantadores, jardins e passeios arborizados que fazem da capital alavesa um pulmão verde sem abrir mão de um urbanismo bem cuidado, onde ruas medievais se misturam harmoniosamente com palácios renascentistas e igrejas neoclássicas. O centro nevrálgico da cidade é a Praça da Virgem Branca, onde se destaca o monumento à batalha de Vitoria. Nela se situa a Igreja de San Miguel, que guarda a imagem da Virgem Branca, padroeira da cidade. Na parte mais alta da cidade situa-se a Catedral de Santa María ou Catedral Velha, um magnífico templo gótico cuja construção foi iniciada no Séc. XIII e se prolongou durante o século seguinte.

Edifício do Centro Cultural (Vitoria, País Basco).

Junto ao Palácio Villa-Suso, com a Catedral de María Imaculada ou Catedral Nova em fundo (Vitoria, País Basco).

Uma vez mais com toda a liberdade para escolher um local a gosto para jantar, acabámos por nos sentar à mesa no restaurante Le Basque, situado na ladeira da Almendra Medieval (o apelido do centro histórico de Vitoria, conhecido pela sua forma elíptica que lembra uma amêndoa e por ser um dos núcleos medievais mais bem preservados do país), em plena Plaza del Machete e ao lado do Palácio Villa-Suso, para degustar as iguarias locais.

Depois de interessantes histórias e peripécias partilhadas de forma animada durante a refeição, seguiu-se um pequeno passeio by night pelas ruas medievais do casco antiguo, prosseguindo depois para o hotel para repousar o esqueleto. Até porque no dia seguinte regressaríamos às longas tiradas, com mais de cinco de centenas de quilómetros em perspectiva.

Continua...