terça-feira, 6 de abril de 2010

O steampunk e as motas

O conceito

E se a tecnologia que temos hoje, tal como a conhecemos, tivesse tomado um caminho diferente?



Como seria se a tecnologia do vapor da era Vitoriana (1837-1901), tivesse continuado até aos nossos dias, oferecendo-nos os mesmos dispositivos que utilizamos mas com o metal, as engrenagens e as rodas existentes nessas primeiras máquinas?

Esta é a ideia por detrás do conceito steampunk, ou seja, tecnologia actual e/ou futurista mas com um look da era do vapor.



O género steampunk pode ser explicado de maneira muito simples, comparando-o a literatura que lhe deu origem.

Baseado num universo de ficção cientifica criado por autores consagrados como Júlio Verne no fim do século XIX, ele mostra uma realidade espaço-temporal na qual a tecnologia mecânica a vapor teria evoluído até níveis impossíveis (ou pelo menos improváveis), com automóveis, aviões e até mesmo robôs movidos a vapor já naquela época.



Devido ao crescente interesse pelo estilo steampunk, muito artistas têm criado ou modificado tudo, desde computadores a relógios de pulso, com uma aparência de ficção cientifica vintage e onde o limite é apenas a imaginação, pelo que podemos encontrar alguns bons exemplos desta aparência no trabalho “cryptozoológico científico” do artista Alex CF, no filme de culto Dune de David Lynch, no filme Rocketeer de Joe Johnston, no filme The League of Extraordinary Gentlemen de Stephen Norrington, no filme de animação Steamboy de Katsuhiro Ôtomo, nos concertos da digressão mundial de 2005 Völkerball da banda Rammstein, etc.


Googles


Alex CF


Guitarra



“Dune”, David Lynch (1984)


Computador


Flash Drive USB (“pen”)


Rato USB


WebCam


“The League of Extraordinary Gentlemen”, Alan Moore and Kevin O'Neill (1999) – Aventura gráfica


“Edison Bar”, Los Angeles


Relógio de pulso


“Rammstein”, Völkerball (2005)

Abrangendo diversas vertentes tais como “Neo-Victoriania”, “Retro-futurism”, “Gas Lamp Fantasy”, “Voyages Extraordinaire”, “Scientific Romance”, ente outras, a cultura steampunk tem inúmeros entusiastas em todo o mundo e pode ser seguida na sua forma mais “light” através do Brass Goggles.

Diversos projectos originais sobre o tema steampunk podem ser apreciados através do Steampunk Workshop.

As motas

Todas estas criações têm uma aparência bastante cuidada, embora não sejam vistas muitas motos que se poderiam enquadrar na categoria steampunk, apesar de algumas se aproximarem (talvez mais por acaso do que propositadamente).

Nestes últimos anos e graças aos cada vez mais mediáticos Campeonatos Europeu e Mundial de Construtores de Motas Custom, o estilo "old scool" é muito apreciado e tem cada vez mais adeptos, possibilitando a criação de alguns trabalhos verdadeiramente notáveis de diversos construtores, como por exemplo a SE Service, a Chicara Art, a Cook Customs, a Sapkamüvek, a AFT Customs, etc.


“Copperbird”, SE Service


“Esox Lucius”, SE Service


“Hulster 8 Valvule”, SE Service


“Liquid Chrome”, Chicara Art


“Time Machine”, Sapkamüvek


“Nickel Bike”, Cook Customs


“ER Hed”, AFT Customs

O trike Bobster da Zeel Design, participante no Campeonato Mundial de 2006, tem fortes indícios deste estilo, com o latão e o cobre como dois fortes componentes do seu design.


“Bobster”, Zeel Design

A bastante original Oomega da Chemical Chopper, também ela participante no Campeonato Mundial de 2006, não esconde a inspiração Vitoriana em muitos dos seus detalhes.


"Oomega", Chemical Chopper

Alguns apontam também como um bom exemplo a extraordinária e exclusiva Confederate B120 Wraith e realmente quando a observamos com maior cuidado, algo que é sempre um prazer, verificamos que este conceito também está presente.


“B120 Wraith”, Confederate

Outro exemplo poderá ser a Aero Bike concebida por Jesse James da West Coast Choppers, onde predomina o seu motor radial Rotec de avião com 7 cilindros (basicamente é uma versão reduzida de um Wright Cyclone da 2.ª Guerra Mundial) com 2800cc de cilindrada (400cc e duas válvulas por cada cilindro) que debita uma potência de 110 hp, para um peso de 100kg e uma largura de mais de 80cm.


“Aero Bike”, Jesse James (West Coast Choppers)

E o que dizer desta fantástica 1909 HD com sidecar Electrolux concebida pelo artista Michael Ulman do Roslindale Open Studios – The Ulmans? Uma verdadeira steampunk.



“1909 HD”, Michael Ulman (Roslindale Open Studios – The Ulmans)

Não são conhecidos muito modelos de duas rodas propulsionados por um motor a vapor, como esta Steam Powered Bicyle de 1896 propriedade de Robert “Buck” Boudeman, encontrando-se a grande maioria deles em museus.


“Steam Powered Bicyle”, Sylvester Roper (1896)

Uma das grandes curiosidades deste modelo (infelizmente pelo pior motivo) reside no facto do seu criador, Sylvester Roper (construtor da primeira máquina de duas rodas auto-propulsionada da América, cuja apresentação pública da bicicleta a vapor ocorreu na sua terra natal de Roxbury, Massachusetts em 1869), ter falecido já depois dos 70 anos aos comandos da Steam Powered Bicyle de 1896 durante uma prova de velocidade na pista de 1/3 de milha de Charles River Park no dia 1 de Junho de 1896, conforme relatado pela imprensa da época.


“Steam Powered Bicyle”, Sylvester Roper (1896) – Emprensa

Mais recentemente (no verão de 2005) e a pedido de Pete Gagan, Paul Brodie lançou mãos-à-obra e construiu uma réplica bastante fiel desta Steam Powered Bicyle de 1896.


“Steam Powered Bicyle”, Paul Brodie – Réplica Sylvester Roper (1896)

Felizmente que nos dias de hoje ainda existem alguns entusiastas do vapor que decidem aplicar os seus conhecimentos e dedicação na concepção de veículos de locomoção, como é o caso de Geoff Hudspith que concebeu a Hudspith Steam Bicycle, apresentada ao público na Great Dorset Steam Fair que se realizou de 29 de Agosto a 2 de Setembro de 2001.


"Hudspith Steam Bicycle", Geoff Hudspith

Outro belo exemplo é a Field Steam Bike de 1908 completamente restaurada e propriedade de Henk van der Wal.


“Field Steam Bike” (1908)

O projecto Hubbard Steamcycle envolveu a recuperação de um exemplar de uma raça bastante rara de máquinas.


“Hubbard Steamcycle”, Arthur "Bud" Hubbard

Tem havido muito pouca exploração comercial da aplicação do vapor nos veículos de duas rodas, pelo que a maioria destas motas que têm visto a luz do dia são realmente protótipos únicos, construídos por amadores e entusiastas do vapor.

Esta Steamcycle não é excepção. Foi inicialmente construída por Arthur "Bud" Hubbard, durante o início da década de 1970, sobre um quadro de uma Maico de 1956 fabricada na antiga Alemanha de Leste.


“Hubbard Steamcycle”, Arthur "Bud" Hubbard (motor)

O seu motor foi fabricado à mão durante mais de 4 anos (com início em 1969), seguindo as indicações do artigo intitulado “A Design of a Steam Motor Cycle” da autoria de Thomas Hindle, publicado em Abril de 1918 na The Model Engineer and Electrician (dedicada a projectos práticos de mecânica e electricidade).


“Steampunk German Motorcycle”, Brösel (Rötger Feldmann) – BD

Esta interessante Steampunk German Motorcycle começou apenas como um desenho em BD relacionada com a personagem de ficção Werner, criada por Brösel (Rötger Feldmann) e que aparece em diversos livros e filmes de animação Alemães, tendo posteriormente passado a realidade através do irmão do artista que decidiu "dar-lhe vida".


“Steampunk German Motorcycle”, Brösel (Rötger Feldmann) – BD


“Steampunk German Motorcycle”

Este modelo na verdade não funciona a vapor, mas pelo seu aspecto exterior poderia parecer que sim.

O único cilindro do motor é proveniente de um velho tractor Deutz e apresenta uma cilindrada de 1440cc (imaginem como deverá soar em funcionamento!), os pneus e as rodas são de um Ford Modelo A, a forquilha é feita de madeira com cintas em ferro forjado e uma pá funciona como assento.

Engrenar a todo o vapor



Estes são apenas alguns exemplos de muitos outros que com certeza existirão por aí, reforçando a ideia que qualquer projecto que se centra sobre a mecânica com algumas engrenagens e rodas, acrescentado mais alguns materiais como o latão e o cobre, fica sempre um espectáculo.

O conceito steampunk incide muito mais sobre o design dos produtos sem se preocupar muito com o ganho (ou perda) de funcionalidade, mas quando se consegue conciliar estas duas componentes num único objecto, o resultado final poderá bem ser uma autêntica obra de arte.

É caso para dizer, VIVA A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Os Tasca Racers

“Se os finais da década de 60 marcaram o apogeu do café racing em Inglaterra, pela mesma altura, os portugueses também marcaram em força o panorama motociclistico nacional com a emergência do tasca racing.”



“Que é afinal esse fenómeno, mais vasto que o inglês, mais social que cultural, mais produto de uma emergência industrial que de uma contracultura, protagonizado mais por Homens verdadeiramente de barba rija que por simples destemidos?”



Este artigo da autoria de Thruxtonic (Café Racer 351) foi publicado na revista Motociclismo n.º 218 (Junho de 2009), e pode ser lido na íntegra aqui.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

John Surtees - Um grande campeão!



O britânico John Norman Surtees (nascido a 11 de Fevereiro de 1934, em Tatsfield - Surrey) foi um piloto verdadeiramente impar no desporto motorizado, sendo o único campeão do mundo em duas e em quatro rodas.



Aqui fica um resumo da sua brilhante carreira desportiva:

A carreira nas Motas



Filho de Jack Surtees (piloto de corridas em sidecar com algum sucesso e proprietário de uma loja de motas em Forest Hill no sul de Londres), John Surtees participou na sua primeira corrida a solo aos 15 anos, numa competição em pista de relva em Eaton Bray, perto de Luton, numa TT réplica 500ccc B14 Excelsior-JAP.

Em 1950, quando tinha 16 anos, entrou para a Vincent-HRD como um aprendiz, efectuando em paralelo as suas primeiras corridas a solo em Brands Hatch numa Triumph Tiger 70 n.º 23 de 250cc.



Fez a sua primeira manchete em 1951 (“the man who made Duke hurry”), quando na sua primeira época completa de corridas imprimiu uma forte concorrência à então estrela da Norton, Geoff Duke, numa prova da ACU (Auto-Cycle Union) no circuito de Thruxton, terminando em 2.º lugar.



Em 1955, o responsável pela competição da Norton, Joe Craig, possibilitou a Surtees a sua primeira experiência de competição com uma Norton 350cc patrocinada pela fábrica, tendo terminado o ano na 6.ª posição, conseguindo bater o campeão mundial em título, Geoff Duke, em Silverstone e em Brands Hatch.

Com a Norton em apuros financeiros e com grandes incertezas sobre os seus planos para a competição, John Surtees aceitou uma oferta para correr com a MV Agusta, vencendo o campeonato mundial de 500cc em 1956 (o seu primeiro).

Na temporada 1957, as MV Agusta não se encontravam ao nível das Gilera e Surtees foi apenas o 3.º classificado do campeonato.

Quando a Gilera e a Moto Guzzi deixaram as corridas de Grande Prémio no final de 1957, Surtees e a MV Agusta passaram a dominar a concorrência nas duas grandes classes, 500cc e 350cc.

Em 1958, 1959 e 1960, venceu 32 corridas em 39 e tornou-se o primeiro homem a vencer o Senior TT na Isle of Man durante três anos consecutivos.



Com um total de sete títulos mundiais conquistados em 9 anos de corridas de motociclismo, venceu o campeonato das 350cc de 1958 a 1960 e o campeonato das 500cc em 1956 e 1958 a 1960.





A carreira nos carros

Em 1960 (com 26 anos) é oferecida a John a possibilidade de competir nas quatro rodas, integrando a Fórmula Júnior, F2 e F1, tendo efectuando a sua corrida de estreia na Fórmula 1 pela equipa Lotus no Grande Prémio do Mónaco, em Monte Carlo, e passando a dividir o seu tempo durante o resto da temporada entre as corridas de motas e de carros.

O seu desempenho causou de imediato um grande impacto, com o 2.º lugar obtido logo na sua 2.ª corrida no Grande Prémio de Inglaterra de 1960 e com a conquista da pole position na sua 3.ª corrida no Grande Prémio de Portugal desse mesmo ano.



Tendo passado a época de 1961 com a Cooper racing team e a época de 1962 com a Reg Parnell Racing, Surtees mudou-se para a Scuderia Ferrari em 1963, onde conquistou o campeonato do mundo para a equipa Italiana em 1964.



No ano de 1965 e em paralelo com a equipa da Scuderia, John conseguiu permissão da Ferrari para criar a Team Surtees e organizar o seu próprio programa de participação em corridas de Sport, cuja nova equipa tem por base numa ligação entre Surtees e Eric Broadley da Lola Racing, da qual resulta um carro com bastante sucesso, o Lola T70-Chevrolet.

Na corrida de 1000km em Nürburgring, Surtees e Scarfiotti vencem o Ferrari 330 P2 prototype.



No dia 25 de Setembro de 1965, a época de Surtees chega ao fim de uma forma abrupta. Durante os treinos do GP do Canadá para carros de Sport (campeonato Can-Am), no circuito de Mosport, a suspensão do seu Lola T70 parte quando seguia a uma velocidade de 125mph, resultando num horrível acidente que quase colocou um ponto final na sua vida.

John saiu da Ferrari durante a temporada de 1966, após vencer o GP da Bélgica, deixando o caminho livre para a conquista do campeonato do mundo por parte de Jack Brabham, mudando-se para a equipa Cooper-Maserati onde venceu no México e atingiu o 2.º lugar no campeonato do mundo. Na Canadian-American (Can-Am) Challenge Cup e após conseguir 5 vitórias com o seu Lola T70, conquistou o respectivo título de campeão.

Em 1967 opta pela a equipa de F1 da Honda para competir e desenvolver o modelo RA273 V12 a partir da sede da sua própria equipa (a Team Surtees), prosseguindo com o desenvolvimento dos modelos RA300 V12 e RA301 V12.



A dupla Surtees/Broadley desenvolveu um coupé com base no Lola T70 para Le Mans e um Lola T100 F2. Os tempos efectuados com este coupé Le Mans assustou a equipa da Ferrari, mas o motor Aston Martin não aguentou toda a distância da corrida.

Ainda em 1967, Surtess participou nas Rex Mays 300 em Riverside, perto de Los Angeles, a prova de estrada final da temporada da United States Auto Club, cujo evento reuniu os melhores pilotos Americanos da altura “contra” os pilotos veteranos da F1, incluindo Jim Clark e Dan Gurney.

Muda-se para a BRM após a retirada da Honda da F1 no final da época de 1968, no seguimento do fracasso do modelo RA302 V8 que causou a morte ao piloto Jo Schlesser no GP de França.

Em 1970 formou a sua própria equipa de competição, a Surtees Racing Organisation, concebendo o seu primeiro monolugar de F1 nas novas instalações em Edenbridge - Kent, o Surtees TS7-Cosworth, continuando a competir nas nove temporadas seguintes na Fórmula 5000, Fórmula 2 e Fórmula 1 como construtor.



O trabalho executado com grande empenho nos testes e desenvolvimento, nas corridas e na gestão da sua equipa, levou Surtess a retirar-se da competição em 1972, no mesmo ano em que a sua equipa teve o seu maior êxito quando Mike Hailwood venceu o Campeonato Europeu de Fórmula 2.

John Surtees decide abandonar a F1 no final de 1978, com o piloto Gordon Smiley a efectuar a última corrida de um carro da equipa Surtees no GP de Inglaterra, com a versão “+” do modelo TS20 (montando as célebres “saias” laterais para produzir o efeito de solo que estavam a ser desenvolvidas no projecto do modelo TS21, nunca materializado).











Durante a sua magnífica carreira desportiva (1951-1972), John Surtees venceu 290 das 621 corridas um que participou, terminou 103 vezes no podium, bateu 48 vezes o record da volta mais rápida e efectuou 100 voltas mais rápidas.

Em 1996 foi introduzido no International Motorsports Hall of Fame:



Em 2003 foi homenageado pela FIM como “Grand Prix Legend”.



Membro da Ordem do Império Britânico (MBE) e actualmente com 76 anos, John Surtees canaliza a sua energia e saber no desenvolvimento do seu negócio, a JOHN SURTEES LTD, com actividades relacionadas com o desporto motorizado e de consultoria, incluindo aparições pessoais e de demonstração sobre condução e em passeios.

Lança-se também no restauro de carros e de motas clássicas, pelo qual é conhecido em todo o mundo.



Como vice-presidente do British Racing Drivers' Club (BRDC), John trabalha afincadamente nos bastidores para assegurar que a Inglaterra mantenha uma posição de destaque no panorama internacional do desporto motorizado.



Dedica também uma parte considerável do seu tempo a iniciativas destinadas a encorajar e desenvolver os novos talentos Britânicos, cujas actividades envolvem a equipa A1 Team GBR do A1GP – The World Cup of Motorsport:



e o circuito internacional de karting outdoor de Buckmore Park, em Kent, onde é pioneiro o centro tecnológico e de treino concebido para levar o desporto motorizado até à comunidade:



O actual piloto Britânico de F1 Lewis Hamilton foi um dos seus frequentadores.



Sem dúvida, um dos grandes campeões da história!



Para saber mais: John Surtees.com