Dia 5 (30/07/2025): Biescas – Jaca
Mais um dia repleto de emoção no Best Pirinéus Tour 2025, com a passagem
em diversos col´s de alta montanha, sempre bem enquadrados por grandiosas
paisagens.
Pese embora o ponto de partida e o ponto de chegada do 5.º dia do tour
distarem apenas 30 km por estrada um do outro, a rota programada era substancialmente
mais alargada. Levar-nos-ia por terras espanholas e francesas, com subida aos
lagos de Panticosa, passagem no Col du Pourtalet, Col du Soulour, Col du
Somport, Col de Marie Blanque, entre outros, visita à recuperada Estação Ferroviária
de Canfranc, e chegada a Jaca (cidade património da Unesco) pela tarde.
Despachadas as tarefas matinais da tomada do pequeno-almoço no hotel, da
arrumação da bagagem e da lubrificação da corrente da mota, a caravana deixou então
a vila de Biescas por volta das 08h30 rumo aos lagos de Panticosa.
Numa curta tirada de 25 km, por uma estrada que também foi uma antiga
rota para a França através do Port du Marcadau (usada em tempos anteriores por
pastores e contrabandistas), chegávamos ao Ibón de los Baños.
Um lago natural localizado no Vale do Tena, a uma altitude de 1.630 m, que
coleta as águas das torrentes que descem dos picos circundantes para dar origem
ao Rio Caldarés.
O lago encontra-se nas imediações de um conjunto de fontes termais
conhecidas desde a época romana, com temperaturas que atingem os 49 °C. As suas
propriedades benéficas para a saúde deram origem a um conceituado spa
com edifícios modernistas (Baños de Panticosa),
declarado Património Cultural, e que oferece diversos serviços de saúde e
beleza.
Após a breve paragem junto ao tranquilo Ibón de los Baños, a caravana do
Best Pirinéus Tour 2025 seguiu montanha acima, em direcção ao território
francês. Com o passar dos quilómetros e à medida que a altitude aumentava, por
oposição a temperatura ambiente ia gradualmente diminuindo. Nada que uma camada
extra de roupa não tenha resolvido a questão.
Na passagem pelo Col
du Pourtalet, um passo de montanha a 1.794 m de altitude na fronteira entre
Espanha e França, efectuámos uma pequena pausa para tomar um café e aquecer um
pouco. Por aqui encontrámos também alguns mamíferos ruminantes (gado bovino)
que, vindos dos pastos circundantes, não se fizeram rogados em invadir o
estacionamento e a estrada. Uma situação comum nestas paragens e para a qual é
necessário ter atenção redobrada.
Das paisagens mais agrestes às mais verdejantes, os Pirenéus Atlânticos
(Pyrénées
Atlantiques) deslumbram todos os que por aqui passam. Num autêntico bailado
de curvas e contra-curvas, com ganchos apertados, subidas íngremes e descidas
acentuadas, as reviradas estradas em redor destas montanhas são extremamente
viciantes e difíceis de resistir para todos aqueles que adoram viajar,
especialmente em duas rodas.
A caminho do Col
d’Aubisque, mais um passo de montanha acima dos 1.700 m de altitude, (1.709
m), as esculturas de bicicletas que se podem ver em alguns locais junto à
estrada não deixam dúvidas. Este local é também um paraíso para os entusiastas
das bicicletas de estrada, sendo regularmente integrado no Tour de France,
geralmente classificado como uma escalada de categoria especial (hors catégorie).
Por aqui os cenários são de cortar a respiração. E mesmo a calhar, junto
ao hotel e restaurante Les Crêtes Blanches, tivemos a oportunidade de parar as
motas para apreciar a grandiosa e deslumbrante vista dos penhascos em redor.
Majestoso, sem dúvida!
E qual não é o meu espanto quando, de repente, surge na estrada uma mota
bem diferente das modernas turísticas de aventura, supostamente mais adaptadas
a este tipo de terreno. Tratava-se de uma idosa e respeitada BSA 500 cc de 1936
(provavelmente uma Model Q7), muito bem conservada, com condutor, passageiro e
até alguma bagagem. Se dúvidas houvesse, ficou comprovado que não são só as
motas trail e afins que andam pelos Pirenéus. É caso para dizer: velhos
são os trapos!
Fazendo fronteira com os Pirenéus Atlânticos, a região dos Altos
Pirenéus (hautes-pyrénées)
configura várias áreas geográficas distintas. A zona sul, ao longo da fronteira
com a Espanha, é composta por montanhas como o Vignemale, o Pic du Midi de
Bigorre e as cadeias Neouvielle e Arbizon. Uma segunda área consiste em colinas
onduladas de baixa altitude. A parte norte é composta em grande parte por
terras agrícolas planas.
Mas são os passos de montanha que, com as suas características
particulares, acabam por ser as atracções da região e definir muitos dos seus
pontos turísticos, como é o caso do Col
Du Soulor (1.474 m). Este local foi também palco de inúmeras ascensões no
Tour de France, mas apenas quinze (entre 1973 e 2025) contaram para a
classificação do prémio da montanha (nas restantes, os pontos da montanha foram
atribuídos apenas no Col d'Aubisque).
Após uma pausa para tomar uma água, apreciar as vistas e juntar o grupo
que já vinha um pouco disperso, retomámos a estrada e a rota do Best Pirinéus
Tour 2025, não em direcção à cidade de Lourdes e ao seu conhecido santuário
mariano, mas de volta aos Pirenéus Atlânticos rumo a Asson.
Uma curiosidade na passagem pela povoação de Ferrières (Occitânia), onde
se pode observar que a placa que identifica a localidade está “de pernas para o
ar”. A colocação de placas de identificação de localidades ao contrário é
um ato deliberado, geralmente motivado por protestos políticos ou sociais.
Na região espanhola da Catalunha, ativistas têm desaparafusado e virado as
placas que indicam o nome dos locais como forma de chamar a atenção para
determinadas causas ou reivindicações, como a independência da região.
Asson emerge na
província de Béarn, entre colinas e picos altos. Está localizada no vale Gave
de Pau, não muito longe de Coarraze, Bourdettes e Arthez-d'Asson. Antiga, a
vila desenvolveu-se durante muito tempo em torno da sua abadia secular, vassala
do Visconde de Béarn, da qual se libertou na segunda metade do Séc. XIII. Hoje,
esta cidade no sudoeste da França é conhecida pelas suas paisagens intocadas,
mas também por fazer parte da área de denominação de Ossau-iraty, pelos
“Haricots Tarbais IGP” (feijões brancos com pele fina, textura delicada e carne
derretida), pelo queijo “tomme noire des Pyrénées”, pato com foie gras
do sudoeste e presunto de Bayonne que atraem bons gourmets.
Tudo bons motivos para uma boa degustação. Mas seria cerca de 5 km
depois, na pequena localidade de Bruges (comuna de Bruges-Capbis-Mifaget), que
nos sentaríamos à mesa do Café
Restaurant du Commerce para o aguardado almoço. Um restaurante familiar,
com cozinha de boa qualidade e pratos simples, mas caseiros.
O acesso ao passo de montanha seguinte parecia agora mais difícil devido
ao “peso extra” do almoço, pese embora os pouco mais de 1.000 m de altitude que
teríamos de vencer para lá chegar. Tratou-se do Col
de Marie Blanque (1.035 m), localizado na estrada de ligação entre os dois
vales vizinhos, o vale do Aspe e o vale do Ossau. Foi igualmente utilizado com
regularidade pelo Tour de France, habitualmente classificado como uma escalada
de primeira categoria (1re catégorie).
Antes da travessia do último passo do dia, o Col
du Somport (porto montanhoso localizado na fronteira entre França e Espanha,
a uma altitude de 1.640 m), uma curiosa construção na rocha fez-me desviar o
olhar da estrada por breves momentos. Tratava-se do Fort du Portalet (na comuna
de Etsaut), erigido num penhasco com cerca de 800 m de altura, com
vista para o rio Gave d'Aspe. Responsável por proteger a estrada para
o Col du Somport, destacam-se as galerias escavadas na rocha, ameadas ou
com brechas.
De regresso ao território espanhol, chegávamos a um dos locais mais
emblemáticos dos Pirenéus para uma visita à antiga Estação
Ferroviária Internacional de Canfranc, uma imponente estação fronteiriça
entre Espanha e França, inaugurada em 1928, construída para as transferências
entre comboios espanhóis e franceses (que utilizavam bitolas ferroviárias
diferentes).
O edifício principal tem uns impressionantes 241 m de comprimento, com
300 janelas e 156 portas (era a segunda maior da Europa, atrás da estação de
Leipzig, Alemanha). Interligou as cidades de Saragoça (Espanha) e Pau (França)
até 1970, onde um acidente com
um comboio levou ao colapso da ponte de L’Estanguet (lado francês) e ao fim da
circulação ferroviária nesta linha. Abandonada desde então, a estação voltou a
abrir as suas portas em 2023 como hotel
de luxo.
Durante a II Guerra Mundial, Canfranc testemunhou detenções, espionagem
e tráfico de ouro, adquirindo a reputação de “Casablanca nos Pirenéus”. No ano
2000, foram aqui acidentalmente descobertos mais de mil documentos que mostram
que cerca de 75 toneladas de ouro nazi passaram pela fronteira a caminho de
Portugal, contrariando a neutralidade oficial do país.
Ficou assim demonstrado o envolvimento português no maior conflito
bélico acorrido até hoje, nomeadamente através do comércio ilegal de volfrâmio
com os alemães. A elevada resistência deste minério a altas temperaturas e a
sua capacidade de tornar as ligas metálicas ainda mais fortes e duradouras,
tornavam-no uma matéria-prima crucial para a indústria do armamento (mais
detalhes sobre esta história no Episódio 5 da série
documental Portugal Secreto).
Canfranc encerra em si mesmo uma certa aura de mistério, e até de
secretismo, digna do enredo de um filme de Hollywood. E como que para continuar
a alimentar esta mística, o Túnel de Somport da ferrovia abandonada, bem no
coração da montanha, é agora utilizado pelo Laboratório
Subterrâneo de Canfranc, um laboratório científico que, protegido da
radiação cósmica, se dedica sobretudo ao estudo de fenómenos naturais de
ocorrência rara, como as interações dos neutrinos de origem cósmica ou da
matéria escura com os núcleos atómicos. Parte do túnel é também utilizado como
faixa de emergência para o actual Túnel Rodoviário de Somport.
Histórias à parte e de regresso ao tour, cerca de duas dezenas de
quilómetros depois chegávamos então a Jaca (província de Huesca,
Aragão), concluindo assim o percurso do 5.º dia do Best Pirinéus Tour 2025. A
comitiva ficou alojada no Hotel
Oroel, localizado no coração da cidade, a poucos passos do centro histórico.
Com as motas guardadas no parque de estacionamento coberto do hotel, o final da
tarde foi aproveitado para conhecer um pouco melhor “a pérola dos Pirenéus”,
como também é conhecida.
Jaca é uma cidade europeia e cosmopolita, paragem fundamental do Caminho
de Santiago. É imprescindível visitar a Cidadela, exemplar da
arquitetura militar do Séc. XVI e declarada Monumento Histórico-Artístico. A
sua construção começou em 1592, tem uma planta pentagonal de grandiosas
dimensões, um fosso, e está construída em terreno plano. Existem outros
edifícios muito importantes, como a Catedral
românica (Séc. XI), declarada Monumento Nacional, o Mosteiro
dos Beneditinos, a Igreja de
Santiago, a Ermida
de Sarsa, a Ponte
medieval de San Miguel, a Torre do Relógio
(Séc. XV) e a Prefeitura.
Entre as suas festas destaca-se a da primeira sexta-feira de maio, que
comemora uma batalha medieval. São feitos torneios, duelos a cavalo, um bonito
espetáculo de “volteo de banderas” e provas de antigos desportos aragoneses
como o arremesso de barra.
Acabámos por ser surpreendidos pelas largas centenas de pessoas que se aglomeravam
ao longo da principal artéria da cidade, sempre muito animadas como é apanágio
do povo espanhol. Percebemos depois que decorria o desfile dos grupos
participantes na 53.ª edição do Festival
Folklórico de los Pirineos, o evento mais antigo da Espanha e um dos mais
reconhecidos do mundo. Declarado Festival de Interesse Turístico Nacional, é
celebrado nos anos ímpares e, até 2009, alternava a sua organização com o
município francês de Oloron-Sainte-Marie.
O evento reúne grupos folclóricos de diversos países e continentes.
Música de rua e danças são combinadas com shows de palco, exposições e mostras gastronómicas.
Neste final de tarde desfilaram grupos de Jaca, Ronda, Zamora, Marselha, Equador,
Geórgia, Colômbia, Montenegro, México, Índia, Cuba, Turquia, Lesoto e Malásia.
Devido à grande quantidade de restaurantes existentes em Jaca, a
organização decidiu novamente não juntar o jantar ao alojamento no hotel.
Assim, cada um ficou livre para escolher o que mais lhe apetecia comer. Mas com
a grande quantidade de gente na cidade devido ao festival folclórico, encontrar
um restaurante com mesa disponível não foi tarefa fácil. Após alguma procura,
acabou por ser no Bar
Jolio Jaca, perto da Igreja
de Nossa Senhora de El Cármen, que nos conseguimos sentar para jantar.
Com um pequeno passeio nocturno pelas ruas de Jaca antes de regressar ao
hotel, demos por terminado mais um dia em cheio por terras pirenaicas. No dia
seguinte, o Best Pirinéus Tour 2025 iria certamente proporcionar novas e
entusiasmantes aventuras para todos os participantes.
Continua...



















