quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Best Pirinéus Tour 2025 #5/8

Dia 5 (30/07/2025): Biescas – Jaca

Mais um dia repleto de emoção no Best Pirinéus Tour 2025, com a passagem em diversos col´s de alta montanha, sempre bem enquadrados por grandiosas paisagens.

Pese embora o ponto de partida e o ponto de chegada do 5.º dia do tour distarem apenas 30 km por estrada um do outro, a rota programada era substancialmente mais alargada. Levar-nos-ia por terras espanholas e francesas, com subida aos lagos de Panticosa, passagem no Col du Pourtalet, Col du Soulour, Col du Somport, Col de Marie Blanque, entre outros, visita à recuperada Estação Ferroviária de Canfranc, e chegada a Jaca (cidade património da Unesco) pela tarde.

Dia 5 – 245 km.

Despachadas as tarefas matinais da tomada do pequeno-almoço no hotel, da arrumação da bagagem e da lubrificação da corrente da mota, a caravana deixou então a vila de Biescas por volta das 08h30 rumo aos lagos de Panticosa.

Numa curta tirada de 25 km, por uma estrada que também foi uma antiga rota para a França através do Port du Marcadau (usada em tempos anteriores por pastores e contrabandistas), chegávamos ao Ibón de los Baños. Um lago natural localizado no Vale do Tena, a uma altitude de 1.630 m, que coleta as águas das torrentes que descem dos picos circundantes para dar origem ao Rio Caldarés.

O lago encontra-se nas imediações de um conjunto de fontes termais conhecidas desde a época romana, com temperaturas que atingem os 49 °C. As suas propriedades benéficas para a saúde deram origem a um conceituado spa com edifícios modernistas (Baños de Panticosa), declarado Património Cultural, e que oferece diversos serviços de saúde e beleza.

O grupo junto ao Ibón de los Baños, Panticosa (Huesca, Aragão).

Após a breve paragem junto ao tranquilo Ibón de los Baños, a caravana do Best Pirinéus Tour 2025 seguiu montanha acima, em direcção ao território francês. Com o passar dos quilómetros e à medida que a altitude aumentava, por oposição a temperatura ambiente ia gradualmente diminuindo. Nada que uma camada extra de roupa não tenha resolvido a questão.

Na passagem pelo Col du Pourtalet, um passo de montanha a 1.794 m de altitude na fronteira entre Espanha e França, efectuámos uma pequena pausa para tomar um café e aquecer um pouco. Por aqui encontrámos também alguns mamíferos ruminantes (gado bovino) que, vindos dos pastos circundantes, não se fizeram rogados em invadir o estacionamento e a estrada. Uma situação comum nestas paragens e para a qual é necessário ter atenção redobrada.

Pausa para um café no Col du Pourtalet (fronteira entre Espanha e França).

Das paisagens mais agrestes às mais verdejantes, os Pirenéus Atlânticos (Pyrénées Atlantiques) deslumbram todos os que por aqui passam. Num autêntico bailado de curvas e contra-curvas, com ganchos apertados, subidas íngremes e descidas acentuadas, as reviradas estradas em redor destas montanhas são extremamente viciantes e difíceis de resistir para todos aqueles que adoram viajar, especialmente em duas rodas.

Das paisagens montanhosas mais agrestes...

... às paisagens mais verdejantes, nos Pirenéus Atlânticos.

A caminho do Col d’Aubisque, mais um passo de montanha acima dos 1.700 m de altitude, (1.709 m), as esculturas de bicicletas que se podem ver em alguns locais junto à estrada não deixam dúvidas. Este local é também um paraíso para os entusiastas das bicicletas de estrada, sendo regularmente integrado no Tour de France, geralmente classificado como uma escalada de categoria especial (hors catégorie).

Por aqui os cenários são de cortar a respiração. E mesmo a calhar, junto ao hotel e restaurante Les Crêtes Blanches, tivemos a oportunidade de parar as motas para apreciar a grandiosa e deslumbrante vista dos penhascos em redor. Majestoso, sem dúvida!

Pequena paragem para apreciar as deslumbrantes vistas, perto do Col d’Aubisque.

E qual não é o meu espanto quando, de repente, surge na estrada uma mota bem diferente das modernas turísticas de aventura, supostamente mais adaptadas a este tipo de terreno. Tratava-se de uma idosa e respeitada BSA 500 cc de 1936 (provavelmente uma Model Q7), muito bem conservada, com condutor, passageiro e até alguma bagagem. Se dúvidas houvesse, ficou comprovado que não são só as motas trail e afins que andam pelos Pirenéus. É caso para dizer: velhos são os trapos!

Magnífica BSA 500 cc de 1936.

Fazendo fronteira com os Pirenéus Atlânticos, a região dos Altos Pirenéus (hautes-pyrénées) configura várias áreas geográficas distintas. A zona sul, ao longo da fronteira com a Espanha, é composta por montanhas como o Vignemale, o Pic du Midi de Bigorre e as cadeias Neouvielle e Arbizon. Uma segunda área consiste em colinas onduladas de baixa altitude. A parte norte é composta em grande parte por terras agrícolas planas.

Mas são os passos de montanha que, com as suas características particulares, acabam por ser as atracções da região e definir muitos dos seus pontos turísticos, como é o caso do Col Du Soulor (1.474 m). Este local foi também palco de inúmeras ascensões no Tour de France, mas apenas quinze (entre 1973 e 2025) contaram para a classificação do prémio da montanha (nas restantes, os pontos da montanha foram atribuídos apenas no Col d'Aubisque).

Chegada ao Col du Soulor (Altos Pirenéus).

Col du Soulor – 1.474 m (Altos Pirenéus).

Após uma pausa para tomar uma água, apreciar as vistas e juntar o grupo que já vinha um pouco disperso, retomámos a estrada e a rota do Best Pirinéus Tour 2025, não em direcção à cidade de Lourdes e ao seu conhecido santuário mariano, mas de volta aos Pirenéus Atlânticos rumo a Asson.

Uma curiosidade na passagem pela povoação de Ferrières (Occitânia), onde se pode observar que a placa que identifica a localidade está “de pernas para o ar”. A colocação de placas de identificação de localidades ao contrário é um ato deliberado, geralmente motivado por protestos políticos ou sociais. Na região espanhola da Catalunha, ativistas têm desaparafusado e virado as placas que indicam o nome dos locais como forma de chamar a atenção para determinadas causas ou reivindicações, como a independência da região.

A povoação de Ferrières (Occitânia) com a placa colocada “de pernas para o ar”.

Asson emerge na província de Béarn, entre colinas e picos altos. Está localizada no vale Gave de Pau, não muito longe de Coarraze, Bourdettes e Arthez-d'Asson. Antiga, a vila desenvolveu-se durante muito tempo em torno da sua abadia secular, vassala do Visconde de Béarn, da qual se libertou na segunda metade do Séc. XIII. Hoje, esta cidade no sudoeste da França é conhecida pelas suas paisagens intocadas, mas também por fazer parte da área de denominação de Ossau-iraty, pelos “Haricots Tarbais IGP” (feijões brancos com pele fina, textura delicada e carne derretida), pelo queijo “tomme noire des Pyrénées”, pato com foie gras do sudoeste e presunto de Bayonne que atraem bons gourmets.

Tudo bons motivos para uma boa degustação. Mas seria cerca de 5 km depois, na pequena localidade de Bruges (comuna de Bruges-Capbis-Mifaget), que nos sentaríamos à mesa do Café Restaurant du Commerce para o aguardado almoço. Um restaurante familiar, com cozinha de boa qualidade e pratos simples, mas caseiros.

O acesso ao passo de montanha seguinte parecia agora mais difícil devido ao “peso extra” do almoço, pese embora os pouco mais de 1.000 m de altitude que teríamos de vencer para lá chegar. Tratou-se do Col de Marie Blanque (1.035 m), localizado na estrada de ligação entre os dois vales vizinhos, o vale do Aspe e o vale do Ossau. Foi igualmente utilizado com regularidade pelo Tour de France, habitualmente classificado como uma escalada de primeira categoria (1re catégorie).

A caminho do Col de Marie Blanque (Pirenéus Atlânticos).

Antes da travessia do último passo do dia, o Col du Somport (porto montanhoso localizado na fronteira entre França e Espanha, a uma altitude de 1.640 m), uma curiosa construção na rocha fez-me desviar o olhar da estrada por breves momentos. Tratava-se do Fort du Portalet (na comuna de Etsaut), erigido num penhasco com cerca de 800 m de altura, com vista para o rio Gave d'Aspe. Responsável por proteger a estrada para o Col du Somport, destacam-se as galerias escavadas na rocha, ameadas ou com brechas.

Fort du Portalet (comuna de Etsaut).

De regresso ao território espanhol, chegávamos a um dos locais mais emblemáticos dos Pirenéus para uma visita à antiga Estação Ferroviária Internacional de Canfranc, uma imponente estação fronteiriça entre Espanha e França, inaugurada em 1928, construída para as transferências entre comboios espanhóis e franceses (que utilizavam bitolas ferroviárias diferentes).

Chegada à Estação Ferroviária Internacional de Canfranc.

O edifício principal tem uns impressionantes 241 m de comprimento, com 300 janelas e 156 portas (era a segunda maior da Europa, atrás da estação de Leipzig, Alemanha). Interligou as cidades de Saragoça (Espanha) e Pau (França) até 1970, onde um acidente com um comboio levou ao colapso da ponte de L’Estanguet (lado francês) e ao fim da circulação ferroviária nesta linha. Abandonada desde então, a estação voltou a abrir as suas portas em 2023 como hotel de luxo.

Estação Ferroviária Internacional de Canfranc.

Estação Ferroviária Internacional de Canfranc (Hotel).

Durante a II Guerra Mundial, Canfranc testemunhou detenções, espionagem e tráfico de ouro, adquirindo a reputação de “Casablanca nos Pirenéus”. No ano 2000, foram aqui acidentalmente descobertos mais de mil documentos que mostram que cerca de 75 toneladas de ouro nazi passaram pela fronteira a caminho de Portugal, contrariando a neutralidade oficial do país.

Ficou assim demonstrado o envolvimento português no maior conflito bélico acorrido até hoje, nomeadamente através do comércio ilegal de volfrâmio com os alemães. A elevada resistência deste minério a altas temperaturas e a sua capacidade de tornar as ligas metálicas ainda mais fortes e duradouras, tornavam-no uma matéria-prima crucial para a indústria do armamento (mais detalhes sobre esta história no Episódio 5 da série documental Portugal Secreto).

Canfranc encerra em si mesmo uma certa aura de mistério, e até de secretismo, digna do enredo de um filme de Hollywood. E como que para continuar a alimentar esta mística, o Túnel de Somport da ferrovia abandonada, bem no coração da montanha, é agora utilizado pelo Laboratório Subterrâneo de Canfranc, um laboratório científico que, protegido da radiação cósmica, se dedica sobretudo ao estudo de fenómenos naturais de ocorrência rara, como as interações dos neutrinos de origem cósmica ou da matéria escura com os núcleos atómicos. Parte do túnel é também utilizado como faixa de emergência para o actual Túnel Rodoviário de Somport.

Estação Ferroviária Internacional de Canfranc.

Histórias à parte e de regresso ao tour, cerca de duas dezenas de quilómetros depois chegávamos então a Jaca (província de Huesca, Aragão), concluindo assim o percurso do 5.º dia do Best Pirinéus Tour 2025. A comitiva ficou alojada no Hotel Oroel, localizado no coração da cidade, a poucos passos do centro histórico. Com as motas guardadas no parque de estacionamento coberto do hotel, o final da tarde foi aproveitado para conhecer um pouco melhor “a pérola dos Pirenéus”, como também é conhecida.

Jaca é uma cidade europeia e cosmopolita, paragem fundamental do Caminho de Santiago. É imprescindível visitar a Cidadela, exemplar da arquitetura militar do Séc. XVI e declarada Monumento Histórico-Artístico. A sua construção começou em 1592, tem uma planta pentagonal de grandiosas dimensões, um fosso, e está construída em terreno plano. Existem outros edifícios muito importantes, como a Catedral românica (Séc. XI), declarada Monumento Nacional, o Mosteiro dos Beneditinos, a Igreja de Santiago, a Ermida de Sarsa, a Ponte medieval de San Miguel, a Torre do Relógio (Séc. XV) e a Prefeitura.

Entre as suas festas destaca-se a da primeira sexta-feira de maio, que comemora uma batalha medieval. São feitos torneios, duelos a cavalo, um bonito espetáculo de “volteo de banderas” e provas de antigos desportos aragoneses como o arremesso de barra.

Catedral de São Pedro de Jaca.

Catedral de São Pedro de Jaca.

Acabámos por ser surpreendidos pelas largas centenas de pessoas que se aglomeravam ao longo da principal artéria da cidade, sempre muito animadas como é apanágio do povo espanhol. Percebemos depois que decorria o desfile dos grupos participantes na 53.ª edição do Festival Folklórico de los Pirineos, o evento mais antigo da Espanha e um dos mais reconhecidos do mundo. Declarado Festival de Interesse Turístico Nacional, é celebrado nos anos ímpares e, até 2009, alternava a sua organização com o município francês de Oloron-Sainte-Marie.

O evento reúne grupos folclóricos de diversos países e continentes. Música de rua e danças são combinadas com shows de palco, exposições e mostras gastronómicas. Neste final de tarde desfilaram grupos de Jaca, Ronda, Zamora, Marselha, Equador, Geórgia, Colômbia, Montenegro, México, Índia, Cuba, Turquia, Lesoto e Malásia.

Desfile do 53.º Festival Folklórico de los Pirineos (Jaca).

Devido à grande quantidade de restaurantes existentes em Jaca, a organização decidiu novamente não juntar o jantar ao alojamento no hotel. Assim, cada um ficou livre para escolher o que mais lhe apetecia comer. Mas com a grande quantidade de gente na cidade devido ao festival folclórico, encontrar um restaurante com mesa disponível não foi tarefa fácil. Após alguma procura, acabou por ser no Bar Jolio Jaca, perto da Igreja de Nossa Senhora de El Cármen, que nos conseguimos sentar para jantar.

Igreja de Nossa Senhora de El Cármen (Jaca).

Com um pequeno passeio nocturno pelas ruas de Jaca antes de regressar ao hotel, demos por terminado mais um dia em cheio por terras pirenaicas. No dia seguinte, o Best Pirinéus Tour 2025 iria certamente proporcionar novas e entusiasmantes aventuras para todos os participantes.

Continua...